Mariana
Nunca é igual se for bem natural
segunda-feira, 21 de setembro de 2026
A arte só nasce do desconforto. Não pense que a alegria ou o que chamam de felicidade não deixam de ser desconfortáveis. Assim, há implícita a dor, o desprazer. A arte nasce do mal-estar, pra aliviar, alentar, descarregar a alma artista desse mundo cruel. Uma alegria imensa passar ao ato, expor, assistir às reações. Um terror no processo, uma depressão depois do ato. Uma dor gostosa, mas perigosa. Artista sem dor é outro nome que dá porque não existe. Nem todo pintor, nem todo músico, nem todo ator, nem todo cantor, nem todo dançarino, é artista. Eu repito por indignação. Se mexe com a arte não é artista necessariamente, é instrumento artístico. A minha dor, além dos incômodos da criação, é não ter por perto alguém com quem eu possa cantar e expor. Tem algo incompatível entre eu e o mundo de quem toca algum instrumento. Parece que nunca há um encontro genuíno. Eu não sou um produto e acabou.
A luta é diária para se proteger e se defender. Primeiro se aprende a manter as pernas bem juntas, cruzadas, se diz fechadas, para que o o corpo não desperte no homem a sua intenção de abrí-las. A boca também, fechada para deglutir toda a vontade de verbalmente se defender do homem.
Quero perder essas referências e a vergonha. Essa vergonha de nada mais do que ser mulher. Já tenho perdas com as graças do trabalho de análise.
Saber se retirar e se recolher é um ganho, uma esquiva, mas também uma capoeira.
Que as mães se revoltem para que suas filhas consigam se defender desde cedo. Eu não sei ainda qual a revolução da minha mãe, talvez eu seja a sua revolução encarnada, pois nada mais aceitável nesse mundo que uma mulher preta revoltada.
O beiço dela torcia toda vez que se referia à família do seu cônjuge. Ela, uma mulher branca. A família dele, toda negra. "Nigrinha", chamava as primas pretas assim. Tudo de ruim que as personalidades dos filhos apresentavam, deveriam ter herdado da família do pai.
O racismo é isso aí. A mulher branca casa com um homem preto e a família dele nunca vai passar pelo crivo da sua branquitude. Nunca nada será suficiente para alterar isso.
Se a filha nasce preta, "neguinha", de quem foi a culpa dessa menina ser assim? Até o corpo da menina é parecido com o corpo das "nigrinhas". O seu olhar atravessa essa criança como se não a enxergasse negra, ainda assim: ela deve se comportar como uma branca, tem por obrigação.
Pouco olha para os seus antecedentes. A família do seu pai era preta, suas tias paternas pretas, gente que nasceu na beira da água, catando no mangue um jeito de sobreviver. Se nasceu de olhos claros foi por causa de sua avó branca dos olhos azuis e da sua mãe branca.
sábado, 12 de setembro de 2026
Como é bonito ver a vida passar cumprindo toda a agenda de trabalho com satisfação. É lindo trabalhar em frente ao mar, com o cheiro do mar, com ondas quebrando forte na paciência.
Paciência foi o que duas mulheres pretas me desejaram nas ruas do centro da cidade de Salvador. Paciência com o meu cão, que deus sempre me dê, elas falaram, sem saber, ou sabendo, sobre a paciência que é preciso para viver e ver o mundo dar as suas voltas.
domingo, 30 de agosto de 2026
Como lidar com a sagacidade do abusador?
Quando a vítima desconcerta o abusador ele fica manso mas ainda pode partir pro ataque.
Os abusadores, a maioria deles homens da família, seduzem uma rede capaz de lhe dar credibilidade, enquanto falta à vítima esse apoio.
Estou tão à flor da pele que sou capaz de cometer um crime.