domingo, 30 de agosto de 2026

 Como lidar com a sagacidade do abusador? 

Quando a vítima desconcerta o abusador ele fica manso mas ainda pode partir pro ataque. 

Os abusadores, a maioria deles homens da família, seduzem uma rede capaz de lhe dar credibilidade, enquanto falta à vítima esse apoio. 

Estou tão à flor da pele que sou capaz de cometer um crime. 

 A menina negra, hoje com seus 100 e poucos anos, me contou que a sua avó lhe retirou da escola porque só voltava para casa apanhada, com seus joelhos inchados de tanto tempo imprensados nos grãos de milho no chão. Era a professora quem cometia as violências e aquilo não podia continuar. A criança nunca que ficava quieta, tampouco fazia as tarefas escolares. A menina mesmo confessa suas dificuldades e quase retira a responsabilidade da professora violenta. Foi salva por sua avó preta, quem lhe ensinou a cantar a música de Iansã.

Revolucionária a sua avó, eu lhe digo. Minha mãe branca sequer acreditou em mim quando lhe confessei os mal tratos sofridos no jardim da infância, de modo que fui obrigada a ir pra escola encharcada de medo por toda a infância, e eu não tenho nem metade da idade da menina hoje. No primeiro dia de aula, fui largada chorando muito e ela nem olhou pra trás. Minha mãe nunca fez revolução. Nem a pouca revolução em assumir que nunca fez nada. 











sábado, 29 de agosto de 2026

 Gostar de alguém é se posicionar, diferente de ficar dando o que a pessoa quer receber. 

Gostar de alguém é criar juntos possibilidades de apaziguamento. 

Hoje a mulher fala para ouvidos surdos de algumas outras mulheres. Não tão surdos, tapados, onde o som ainda alcança. Maior sensação de solidão talvez não haja. 

Gostar de si mesma é depois da solidão. 




O bichinho era tão pequenininho que parecia uma barata

Uma dúvida 

Vinha patinando sobre a água do canto

Em minha direção 


O bichinho era um cágado 

Há quem chame jabuti

Eu perguntei ao oráculo 

Mergulhando no ori


O bichinho miudinho peguei nas mãos

Acordada conheci 

É o sagrado de Xangô 


Pensei em justiça 

A meu favor








quinta-feira, 20 de agosto de 2026

 Grossa 

Igual à chuva

Afiada

Como a aresta da lâmina 

Na cara do cara 

Determinada

Rente à mente de um matador

Exausta

Semelhante a qualquer mulher deste século 



Santa poesia 


Chá de sumiço

 Sair do campo de visão. É a conclusão. Nunca mais verá a minha cara, só se for em um velório e olhe lá. É auto-defesa. 

O perverso não quer eliminar uma pessoa, quer permanecer eliminando. Se o objeto some, o que acontece? Vai procurar outro objeto! 

sábado, 11 de julho de 2026

Ele chorava

E a loucura 

As lágrimas corriam

A boca dizia

Me tire daqui

Dessa loucura


Espelho de minhas loucuras

Eu quase choro imediatamente 

A minha loucura 

Da família das loucuras

Familiares 

Engoli o choro no meio do peito 


Se o vejo quando meus olhos cegam em lembrar

Eu quase choro novamente 

Lágrimas de oxum que chora 

Um magnetismo convidando para a borda


No pátio

Muita loucura 

Conter um homem grande 

Só mais cinco homens 

E muita amarração 

Mais loucura 

Medicação 






domingo, 28 de junho de 2026

Tem assunto que só interessa à pessoa que assunta. Fala pro analista mas são espumas ao vento. O assunto só vai causar a quem fala. Seria até bom falar pra um amigo que mora longe, mas não passaria de um desencontro.


Ao menos que seja pra nos mostrar, dizer onde chegamos desde aquele dia que nos ajudamos a viver melhor os momentos difíceis.





Eu vi um macho murcho

O que será esse fenômeno?

Um macho murcho sem ameaças 

O que é?

Murcho só com a presença da mulher 

Que quis exterminar sem sucesso 

Murchou a língua, o corpo todo

No mesmo lugar


Será quebrada a macheza com tanta murcheza? 

A mulher está cercada por muitas outras mulheres 

Nem o mais macho ousaria inflar







domingo, 24 de maio de 2026

 A boca abre

Abre mais um pouco 

Abre e fecha

Abre e fecha por alguns minutos 

Enquanto abre e fecha 

Da boca saem sons

Afinadas

Desafinadas

Com notas 

Hipnotiza 


Essa boca que abre e fecha

Também emite a indigestão 

Não se sabe por psicossomática 

Nem se por histeria 

Se pela falta da família 

Pelo choro 

Em silêncio 

Vomita



sexta-feira, 9 de janeiro de 2026

O mundo já é uma guerra. Uma bomba a mais outra a menos não causa mais indignação ao mundo, tão machucado. A moça arrastada pelo asfalto é mais uma notícia de atrocidades. Viver é ver o mundo colapsar sem chances a mais. Portanto, se ocupar das notícias do mundo não pode fazer tão parte da vida das pessoas. 

 Ponto final na vida é de continuação. A adrenalina sobe pro ponto final, depois vem o alívio. Alívio em reaver coisas minhas e não deixá-las nas mãos dos outros. E bloquear. E apagar. Deixar a vida levar pra bem longe e nunca mais. Nunca mais existe. Não existe é vida após a morte que o ponto final dá. 

sexta-feira, 2 de janeiro de 2026

Uma geração sem agrotóxicos.

Uma geração com agrotóxicos e celular à cabeceira.

Uma geração com agrotóxicos, celular à cabeceira e com falta de água.

Uma geração com agrotóxicos, celular à cabeceira, com falta de água e ondas assassinas de calor.

Sufocados, arrastados pelas enchentes e ressacas, sedentos.

Exterminados.



quinta-feira, 1 de janeiro de 2026

O surtado do mercado

 Eu não sei se é o surtado do mercado ou o surtado no mercado. Alguém nessa vida viu e ouviu aquela voz vigorosa vindo do nada e de repente você está apenas caminhando em compras. 

O que dizia essa voz que são vozes até hoje eu não sei. Mas nelas sempre tem um tom de indignação, revolta, eloquência, coragem, entre a aparente decadência de sua condição social. Há de surgir em algum mercado um surtado para assim quem sabe eu lhe dedicar minha escuta flutuante. Mas sem saber da história do sujeito em surto eu teria pouquíssimo acesso ao seu inconsciente.

O surtado vira apenas um som emitido por um ser humano. As pessoas continuam suas compras. Continuam pagando para um surtado aparecer. Afinal, está -se em compras, nada de mal nisso. Um homem surtar justamente no mercado, ele é uma representação sintomática dele. 

O surtado no mercado é o surtado do mercado. Geralmente posicionam-se na entrada do mercado, área limítrofe, nem dentro nem fora, enquanto seu corpo falante causa intimidação, rejeição. O grotesco.