quarta-feira, 26 de abril de 2017

o Menina baiana - claquete 26

CENA: Sem sinal

O AMIGA:  Vamos ter fé!!

O MENINA: Sem a fé de que é possível fazer algo, fica difícil. Incrível. Veja: a cartomante parece que tá acertando mesmo. Quero acender uma vela. Qual a vela que acendo pra essa alegria? Ao menos isso tem me dado alguma alegria.

O AMIGA: Como faço? Quero ir na cartomante. Rosa pro amor...

O MENINA: Verde, de esperança. Eu e minhas ideias! Como você está? Vou te mandar uma música que eu achei bonita.

O AMIGA: Meio apaixonada...uma ansiedade...

O MENINA: Escute essa que pode aliviar. Eu tô caminhando e constatando, mas não que eu acredite nela [ri] Fui lá quando estava me sentindo assim, apaixonada e ansiosa. Me causou um alívio, porque ela fala as coisas numa segurança impressionante. Depois me aborreci. Ela falar do meu futuro porque eu paguei pra isso! Mas agora que a revolta passou, estou vendo que a saída pra tudo é fé e amor.


"É tão bom quando a gente se entrega à beleza, se sente em total realeza com a natureza e o amor, é tão bom quando cicatriza uma ferida abrindo as portas da vida prum beija-flor te beijar, é tão bom quando a gente tem fé e acredita que existe uma vida bonita como quem cultiva uma flor, é tão bom não se desesperar com besteiras nem levar a sério as asneiras que algum ser humano tramou, é tão bom ir colando os pedaços da vida e sentir toda ira incontida que teima em queimar todo ser é esquecer toda a mágoa que molhou teus olhos, saber que no fundo unicórnios, pavões e mistérios no ser, há" (Luiz Caldas)



terça-feira, 25 de abril de 2017

o Menina baiana - claquete 25

Adentrou a casa e foi direto pra rede. Parou o balanço com a ponta do pé no chão. Voltou-se à janela de modo que vejo somente as suas curvas se fazendo no tecido.

O MENINA: Sou da rede e ela me enreda. Babel, pura babel, mas igual. Gente não precisa ser sempre original. Eu invento cais, invento cores da razão, invento apresentação... [pausa e fixa o olhar] Eu quero ser tocada. Deitar minha cabeça num colo e sentir dedos pelos meus cabelos arrepiando o meu corpo inteiro e lembrar que isso existe. Que existe o som do S na fala de alguém. Fale nós aí. Mesmo que seja nó, fale nós aí. Escute: nós. É uma canção de ninar o S quando alguém faz cafuné enquanto fala. Sem cafuné já o é, quem dirá com... [se vira na rede] Edith Piaf amava Marcel. Marcel morava longe. Ele vivia com a família dele, longe. Às vezes eles se encontravam, jantavam, se amavam. Ela amava ele e sempre esperava ele voltar e enquanto isso, cantava. [se vira na rede]
Hoje eu quero beijar um beijo querido. Hoje eu quero um abraço querido, escutar um coração e alisar uma mão querida, segurar um dedo mindinho querido, sentir minhas mãos passarem por um rosto querido, passarem na aspereza de uma barba querida ou de um rosto sem barba querido. Um beijo querido hoje é tão fora do meu alcance... Tem dias que querer nessa vida me deixa triste e eu choro.


"escute essa canção que é pra tocar no rádio, no rádio do seu coração, você me sintoniza e a gente então se liga nessa estação" (Moraes Moreira)

o Menina baiana - claquete 24

CENA: Darte un beso

O MENINA: Quando eu tiver passado por essa terra... Passado já tenho... Quando eu virar pó. Pó eu já sou nessa imensidão... Quando eu não proferir palavras. Assim, quando da minha boca não saírem mais palavras, nem um beijo pra te dar... Eu choro pensando. Porque yo soy llorona. Quiero que no te falte nada. 

segunda-feira, 24 de abril de 2017

o Menina baiana - claquete 23

CENA: Abraço

O MENINA: Você​ quer meus livros? Não usei nada ontem. Estava muito feliz pra me drogar. Não vou mais estudar nada de psicanálise. Já usei hoje. Isso só tem me atormentado.


O PISC! : Então não leia.

O MENINA: Eu quero tirar de mim. Eu quero ser simples. Falar do dia, andar pela rua. Escutar música. Eu fico tão triste toda vez que eu tenho que me afastar da sua presença. Isso não pode. Fale da minha vida o que quiser. Isso não tem valor. Um pedaço de carne sem toque. Já estamos mortos.

O PISC!: Obrigada.

O MENINA: Parece que vou explodir. Que habita em mim. Sou eu quem lhe agradeço por você existir. Você é lindo.


O PISC!: Eu sou você. É com isso que caminhamos juntos. É a nossa beleza.




o Menina baiana - claquete 22

CENA: Amor.

O MENINA: Você me ama. Só pode ser. Não, não me ame nunca. Isso não tem cura. Se eu cantar, cantar, fizer gente feliz por isso, pronto. Deus vai me salvar. Estou à beira da morte.

O EXISTENCIALISTA: Cante! Cante!

O MENINA: Sonhei caminhando com você nas ruas. Eu arrumando uma mochila pra caber coisas minhas e suas enquanto alguém que dividia a morada pintava a casa. Ontem quase vomito de tanta coisa na minha cabeça e aperto no meu peito. Eu nunca estive tão consciente da maluquez.

O EXISTENCIALISTA: Desculpe por tudo.

O MENINA: Não precisa pedir desculpas, eu aprendi muito e continuo aprendendo. Pra ser feliz nessa vida é preciso cantar.

O EXISTENCIALISTA: Ou é preciso sambar.

O MENINA: Também.

 O EXISTENCIALISTA: Eu não sei sambar. Nem cantar.

O MENINA: Sabe sim.

O EXISTENCIALISTA: Sei não.

O MENINA: Todo mundo sabe.

o Menina baiana - claquete 21

CENA: Canto da cidade

O MENINA: Por onde eu ande nessa cidade, ela me chama. Hoje ondina estava me chamando. Acho que ficou com ciúmes das cores vivas que recebi ontem. Ah, ondina ciumenta! Todo dia rio vermelho. Teria até beijo se eu fosse flores de Frida. Beijos da boca de um existencialista ateu. Eu rio. Há lugares que me chamam cantando música baiana. Eu gosto da barroquinha. Já o itaigara... O itaigara... Esse me chama cantando o silêncio das sereias. Se eu fosse Ulisses saberia tapar meus ouvidos. Mais Penélope nem sabe do canto das sereias... ela vive bordando, bordando...


domingo, 23 de abril de 2017

o Menina baiana - claquete 20

As suas visitas têm lhe feito bem, eu julgo. Na sua ausência, quando prolongada, ela fica bastante irritada. Hoje saiu, comprou coisas e arrumou o quarto. Daqui posso vê-la deitada de bruços, com os pés apontando pro teto, esfregando um no outro.

O MENINA: É tão retinha essa linha... Tão perfeita... Como é que pode uma reta perfeita como essa ser curva do mundo? Ser curva e parecer infinita... Às vezes turva linha, mas sempre reta. Haverá sempre quem cante moça, ela não foi feita pra cantar só pra mim. Eu quero me divertir no dia do aniversário. De tão simbiótica, fiz nascer geminiano. Chega uma hora que tem que ignorar, não é? Eu te entendo... Entendo mesmo. Vai ver que Frida sufocava Diego de tanto amor. [pausa] Se é que amor sufoca.


"Às vezes lhe comparo com a calmaria do mar, um vento silencioso, um Caymmi a bocejar, mas você é agitada até no modo de falar, é um trio na calçada, Armandinho Dodô e Osmar" (Walfran Trindade)