CENA: Pra qualquer um
O MENINA: Acho que estou atravessando a morte agora. A amizade quando acaba é ruim. Eu devo ser muito boba então. Mas enquanto eu enxergue sentimento, eu estarei perto de quem eu gosto. Eu dizer: sinto saudades. E a outra pessoa dizer: eu também sinto. Acho que tem algo muito maior do que o que é genital. É saudade de estar na presença. Amar é acompanhar. Estar perto de algum jeito. Eu acho. Porque a vida é essa solidão mesmo. Eu choro de soluçar toda vez que tenho que me despedir até hoje. A cartomante disse que ele viria. Ele está vindo. E eu estou aprendendo a atravessar o dilacerante que há em minhas paixões. Quando eu gosto, eu gosto. Veja: [pega o celular e mira a tela] "Vc é muito linda. Inteligente e bem resolvida. É o tipo de mulher que qualquer homem casaria. Sua personalidade é rara. Você é única e seu valor é insubstituível. Tem carisma único e um sorriso que enche qualquer lugar de cor. Era pra você tá casada e bem casada. Você deu mole. Ia te dar uma luz espiritual.Tenho vidência da vida alheia. Na minha não vejo nada. Se for casada comigo, todo dia tem um homem diferente na cama. O problema é aguentar o ritmo. Sou quase ninfomaníaco.Tu guenta? Bora casar? Casamento moderno, cada um na sua casa. Paixão é do corpo. Amor é da alma. As pessoas não nascem prontas, elas se encaixam.Bem assim." Viu? Sou um fetiche. Pra qualquer um?
sábado, 29 de abril de 2017
sexta-feira, 28 de abril de 2017
o Menina baiana - claquete 32
CENA: You don't know me
O MENINA: Uma vontaaaade de lhe chamar de amor... Meu amor... Diga, amor. Vamos, amor. Sim, amor. Oi, amor. Não, amor. Ai, amor.
"Não tem problema, quê que eu vou dizer, não tem problema, quanto mais amor mais vale a pena outros temas" (Carlinhos Cor das Águas)
O MENINA: Uma vontaaaade de lhe chamar de amor... Meu amor... Diga, amor. Vamos, amor. Sim, amor. Oi, amor. Não, amor. Ai, amor.
"Não tem problema, quê que eu vou dizer, não tem problema, quanto mais amor mais vale a pena outros temas" (Carlinhos Cor das Águas)
o Menina baiana - claquete 31
CENA: Greve geral
A QUERENTE: Posso te ligar? Posso? Tá chateada comigo? [pausa] Não entendi. Beleza então. [pausa] Não vai falar? [pausa] Esse é o seu problema. Não me quer mais?
O MENINA: Você desconhece os meus problemas.
A QUERENTE: Diga.
O MENINA: Eles nunca passaram pelo sexo, inclusive.
A QUERENTE: Não me quer nunca mais?
O MENINA: Te querer?
"Eu, tu e todos no mundo tememos por nosso futuro, ET e todos os santos valei-nos, livrai-nos desse tempo escuro, lá lá lá lá lá lá lá" (Gilberto Gil)
A QUERENTE: Posso te ligar? Posso? Tá chateada comigo? [pausa] Não entendi. Beleza então. [pausa] Não vai falar? [pausa] Esse é o seu problema. Não me quer mais?
O MENINA: Você desconhece os meus problemas.
A QUERENTE: Diga.
O MENINA: Eles nunca passaram pelo sexo, inclusive.
A QUERENTE: Não me quer nunca mais?
O MENINA: Te querer?
"Eu, tu e todos no mundo tememos por nosso futuro, ET e todos os santos valei-nos, livrai-nos desse tempo escuro, lá lá lá lá lá lá lá" (Gilberto Gil)
o Menina baiana - claquete 30
CENA: Uma criança que não precisa ser ninada pra dormir
O MENINA: Viver é igualzinho a caminhar dentro da água. Se maré vazante, anda mais leve, se maré cheia, as pernas pesam mais, se esforçam mais. Quando eu digo que nada não existe... É isso. É rede porque é maré! Aí inventaram o amor. Que bobagem... O outro nunca está lá onde a gente alcança. É só a gente que vai. Vai só. Só miragem é o que há. Por isso é bom olhar para si. Ser em si. A consciência de si. O outro é o outro. Ele aparece nas relações, nos encontros. Coisa difícil é encontrar o outro. Por isso outros. Mas só um. Além de mim, só um. Acho que estou vendo uma folha verde ainda enrolada em si e de tão recém nascida. É macia como a pele de um bebê e frágil também. Essa folha brota de mim e faz seus esforços pra desenrolar-se. É uma folha só. Ainda. Vou deixar a justificativa do tamanho que está. Quem quiser ler vai ler ou então vai do release aos outros dados. É lá onde estou dizendo quem eu sou, a obra é isso. Sou eu. Eu vou indo comigo. Quem quiser que leia. Esse meu fazer é o meu desejo de desejo.
O MENINA: Viver é igualzinho a caminhar dentro da água. Se maré vazante, anda mais leve, se maré cheia, as pernas pesam mais, se esforçam mais. Quando eu digo que nada não existe... É isso. É rede porque é maré! Aí inventaram o amor. Que bobagem... O outro nunca está lá onde a gente alcança. É só a gente que vai. Vai só. Só miragem é o que há. Por isso é bom olhar para si. Ser em si. A consciência de si. O outro é o outro. Ele aparece nas relações, nos encontros. Coisa difícil é encontrar o outro. Por isso outros. Mas só um. Além de mim, só um. Acho que estou vendo uma folha verde ainda enrolada em si e de tão recém nascida. É macia como a pele de um bebê e frágil também. Essa folha brota de mim e faz seus esforços pra desenrolar-se. É uma folha só. Ainda. Vou deixar a justificativa do tamanho que está. Quem quiser ler vai ler ou então vai do release aos outros dados. É lá onde estou dizendo quem eu sou, a obra é isso. Sou eu. Eu vou indo comigo. Quem quiser que leia. Esse meu fazer é o meu desejo de desejo.
quinta-feira, 27 de abril de 2017
o Menina baiana - claquete 29
CENA: Outro dia só existe pra quem dorme.
O MENINA: Meus ouvidos estão cada vez mais sensíveis. O único barulho que eu não posso dar jeito é o que faz a água batendo nas pedras quando é enchente. Ou vou pra bem longe dele, lugar onde eu não viveria muito bem porque seria ficar longe de mim. Do outro lado está a África se eu o atravessar. Mas isso não é preciso porque já a trouxeram de lá e a prova disso é que eu estou aqui. A "negra", como a irmãzinha chamava. Pra ela, dá boca dela, o meu nariz não era nariz, e sim"ventas". Isso porque ela se enxergava no espelho de não sei onde, porque é filha de preto, neta de preto, bisneta de preto, preto da saúde. Eu acreditava quando ela cantava pra mim "ovelha negra da família"... Talvez porque meu sonho nunca tenha sido uma família, ou porque eu não gostava de brincar de bonecas ou colecionar papéis de carta. Ou porque aprendi a ler sem ir pra escola, ou porque eu fui "inútil", "irresponsável", "irritante" porque disse a ela que quem era a mulher do pai dela não era nem eu nem ela. [gargalha alto e canta alto] "Ah! Bruta flor do querer! Ah! Bruta flor, bruta flor!" [gargalha] Eu sei lá o que ela queria de mim que eu nunca tive pra dar. Tem gente que é assim. Um bocado de gente é assim. Às vezes eu sou assim, ondina ciumenta. Entretanto, en-tre-tan-to, eu escuto ceu. Eu amo, eu amo, eu amo, eu amo... Será que um dia farei um disco que eu goste de escutar? Eu canto, eu canto, eu canto... Venha ouvir a ovelha negra de ouvidos sensíveis! Fale baixo. Fale bem baixo. Fique calada. Caladinha. Escute. Meu disco.
"Que Deus entendeu de dar toda magia, pro bem, pro mal, primeiro chão na Bahia, primeiro carnaval, primeiro Pelourinho também, que Deus deu" (Gilberto Gil)
O MENINA: Meus ouvidos estão cada vez mais sensíveis. O único barulho que eu não posso dar jeito é o que faz a água batendo nas pedras quando é enchente. Ou vou pra bem longe dele, lugar onde eu não viveria muito bem porque seria ficar longe de mim. Do outro lado está a África se eu o atravessar. Mas isso não é preciso porque já a trouxeram de lá e a prova disso é que eu estou aqui. A "negra", como a irmãzinha chamava. Pra ela, dá boca dela, o meu nariz não era nariz, e sim"ventas". Isso porque ela se enxergava no espelho de não sei onde, porque é filha de preto, neta de preto, bisneta de preto, preto da saúde. Eu acreditava quando ela cantava pra mim "ovelha negra da família"... Talvez porque meu sonho nunca tenha sido uma família, ou porque eu não gostava de brincar de bonecas ou colecionar papéis de carta. Ou porque aprendi a ler sem ir pra escola, ou porque eu fui "inútil", "irresponsável", "irritante" porque disse a ela que quem era a mulher do pai dela não era nem eu nem ela. [gargalha alto e canta alto] "Ah! Bruta flor do querer! Ah! Bruta flor, bruta flor!" [gargalha] Eu sei lá o que ela queria de mim que eu nunca tive pra dar. Tem gente que é assim. Um bocado de gente é assim. Às vezes eu sou assim, ondina ciumenta. Entretanto, en-tre-tan-to, eu escuto ceu. Eu amo, eu amo, eu amo, eu amo... Será que um dia farei um disco que eu goste de escutar? Eu canto, eu canto, eu canto... Venha ouvir a ovelha negra de ouvidos sensíveis! Fale baixo. Fale bem baixo. Fique calada. Caladinha. Escute. Meu disco.
"Que Deus entendeu de dar toda magia, pro bem, pro mal, primeiro chão na Bahia, primeiro carnaval, primeiro Pelourinho também, que Deus deu" (Gilberto Gil)
o Menina baiana - claquete 28
CENA: Insone
O MENINA: Duas horas e cinquenta e um minutos na capital baiana. Tô nauseada. Insone. Não sei se o barulho que esse mar faz está me acalentando ou perturbando. Já desisti de escrever, desisti de escutar música... Eu tô quase desistindo de um monte de coisas. As pessoas só querem o excesso do que é belo. Aí elas riem. Se lavam de belo. Ah... do que é esdrúxulo não.. do que é grotesco...mais grotesco do que a mim, nauseada... Ah...eu entendo Elis, entendo Amy, entendo Micheal... A única coisa que me provoca algum pixel é o dia 28 de maio... e olhe lá se esse 28 de maio chegar. Eu não sei se esse 28 de maio... Que ele chegue. Eu não entendo nada de Sartre, nem de existencialismo, nem do que ele fez com Simone de Beauvoir. O que eu sinto é vontade de vomitar. Me dê um interruptor, me dê um interruptor, me dê um interruptor... Vou interromper.
O MENINA: Duas horas e cinquenta e um minutos na capital baiana. Tô nauseada. Insone. Não sei se o barulho que esse mar faz está me acalentando ou perturbando. Já desisti de escrever, desisti de escutar música... Eu tô quase desistindo de um monte de coisas. As pessoas só querem o excesso do que é belo. Aí elas riem. Se lavam de belo. Ah... do que é esdrúxulo não.. do que é grotesco...mais grotesco do que a mim, nauseada... Ah...eu entendo Elis, entendo Amy, entendo Micheal... A única coisa que me provoca algum pixel é o dia 28 de maio... e olhe lá se esse 28 de maio chegar. Eu não sei se esse 28 de maio... Que ele chegue. Eu não entendo nada de Sartre, nem de existencialismo, nem do que ele fez com Simone de Beauvoir. O que eu sinto é vontade de vomitar. Me dê um interruptor, me dê um interruptor, me dê um interruptor... Vou interromper.
o Menina baiana - claquete 27
CENA: Lavando a solidão
O MENINA: Minha vovozinha sabida me viu hoje e me perguntou: porque está tão magrinha? Minha vovozinha calada já me disse um monte de coisas. Disse também: você ainda tem estrada, eu já caminhei. Reaja. Sim, minha vovozinha, sou uma neta obediente agora. Prometo, vou parar de xingar. Prometo, vou parar de sentar no portão pra assistir aos meninos jogarem bola. Prometo, vou apenas trabalhar. Prometo, vou me alimentar melhor, minha vovozinha. Quer sentar comigo e fazer bolsas de ráfia? Quer que eu vá atender no balcão da sua venda? Forrar os botões, vovozinha? Eu escutei sim, está só, sozinha, minha vovozinha. Quer a rede pra deitar? Vamos assar castanhas de caju? Sim, vovozinha, eu levarei as cascas das frutas pras galinhas. Eu colocarei o resto do almoço pro cachorro preto, a mim ele não morde, vovozinha. Domingo vamos tomar sorvete? Serei ri-rica, vovozinha, assim ele me chamava, lembra? Má-rí, vovozinha. Ela leu minha mão e disse que achou engraçado porque eu não nasci pra ser pobre. Fui escondida, vovozinha. Quer que eu sente no banco da igreja pra escutar o seu coral? Você me enxerga, vovozinha? Se eu dormir, você me acorda? Eu gosto de banana real, vovozinha...
O MENINA: Minha vovozinha sabida me viu hoje e me perguntou: porque está tão magrinha? Minha vovozinha calada já me disse um monte de coisas. Disse também: você ainda tem estrada, eu já caminhei. Reaja. Sim, minha vovozinha, sou uma neta obediente agora. Prometo, vou parar de xingar. Prometo, vou parar de sentar no portão pra assistir aos meninos jogarem bola. Prometo, vou apenas trabalhar. Prometo, vou me alimentar melhor, minha vovozinha. Quer sentar comigo e fazer bolsas de ráfia? Quer que eu vá atender no balcão da sua venda? Forrar os botões, vovozinha? Eu escutei sim, está só, sozinha, minha vovozinha. Quer a rede pra deitar? Vamos assar castanhas de caju? Sim, vovozinha, eu levarei as cascas das frutas pras galinhas. Eu colocarei o resto do almoço pro cachorro preto, a mim ele não morde, vovozinha. Domingo vamos tomar sorvete? Serei ri-rica, vovozinha, assim ele me chamava, lembra? Má-rí, vovozinha. Ela leu minha mão e disse que achou engraçado porque eu não nasci pra ser pobre. Fui escondida, vovozinha. Quer que eu sente no banco da igreja pra escutar o seu coral? Você me enxerga, vovozinha? Se eu dormir, você me acorda? Eu gosto de banana real, vovozinha...
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