Mariana
Nunca é igual se for bem natural
sexta-feira, 9 de janeiro de 2026
Ponto final na vida é de continuação. A adrenalina sobe pro ponto final, depois vem o alívio. Alívio em reaver coisas minhas e não deixá-las nas mãos dos outros. E bloquear. E apagar. Deixar a vida levar pra bem longe e nunca mais. Nunca mais existe. Não existe é vida após a morte que o ponto final dá.
sexta-feira, 2 de janeiro de 2026
Uma geração sem agrotóxicos.
Uma geração com agrotóxicos e celular à cabeceira.
Uma geração com agrotóxicos, celular à cabeceira e com falta de água.
Uma geração com agrotóxicos, celular à cabeceira, com falta de água e ondas assassinas de calor.
Sufocados, arrastados pelas enchentes e ressacas, sedentos.
Exterminados.
quinta-feira, 1 de janeiro de 2026
O surtado do mercado
Eu não sei se é o surtado do mercado ou o surtado no mercado. Alguém nessa vida viu e ouviu aquela voz vigorosa vindo do nada e de repente você está apenas caminhando em compras.
O que dizia essa voz que são vozes até hoje eu não sei. Mas nelas sempre tem um tom de indignação, revolta, eloquência, coragem, entre a aparente decadência de sua condição social. Há de surgir em algum mercado um surtado para assim quem sabe eu lhe dedicar minha escuta flutuante. Mas sem saber da história do sujeito em surto eu teria pouquíssimo acesso ao seu inconsciente.
O surtado vira apenas um som emitido por um ser humano. As pessoas continuam suas compras. Continuam pagando para um surtado aparecer. Afinal, está -se em compras, nada de mal nisso. Um homem surtar justamente no mercado, ele é uma representação sintomática dele.
O surtado no mercado é o surtado do mercado. Geralmente posicionam-se na entrada do mercado, área limítrofe, nem dentro nem fora, enquanto seu corpo falante causa intimidação, rejeição. O grotesco.
quarta-feira, 24 de dezembro de 2025
As mulheres estão criando estratégias de defesa
As mulheres estão criando estratégias de defesa conta o masculinismo. Os dispositivos tecnológicos facilitam a comunicação, chegando rápido entre elas. Isso pode salvar muitas vidas.
Tenho pensado na relação desse movimento e a psicofobia, preconceito contra pessoas portadoras de transtornos mentais. Da mesma maneira que eles se dizem Peter Pan, a mulher logo cedo aprende as durezas do mundo, impostas por eles. Escutei caso de internação involuntária da mulher pelo próprio cônjuge. Isso é grave. Este cenário de medicalização, diagnósticos sem pesquisa do caso, parece um movimento contra as mulheres, e entendo mulheres juntamente às suas crianças. O ataque os atinge. Crianças e mulheres medicalizadas favorecem ao masculinismo.
Na clínica com crianças é raro o comparecimento do pai. O cônjuge também não acompanha a mulher. Os problemas delas geralmente são os homens. Desde o abuso na infância, estupros e demais violências, física e psicológica. Terrível. Chocante pensar nisso agora.
A notícia na cidade é a de a Bíblia será adotado como parte pedagógica na escola. Um perigo. Há ainda mulheres carregadas pelo machismo, vivendo um ciclo que parece sem fim, quando termina em morte. Há homens fazendo tratamento de silêncio e infectando mulheres e que vão até às manifestações contra o feminicídio. Um horror isso.
Eu não sei se peço às escolas, aos espaços comunitários, à saúde pública, a presidência, pra escutar as mulheres sobre as maneiras de fazer uma revolução a favor das pessoas, da coesão. Eu entendo que hoje há um que Durkheim chama de anomia, algo está fora da ordem, porque as coisas se repetem e continuam boicotando as pautas femininas, em todos os espaços contaminados.
Uma mulher não é mulher sozinha. Portanto as articulações são importantes.
domingo, 21 de dezembro de 2025
Quando é possível superar o trauma, acordar no outro dia e sentir que se está livre dos pensamentos intensivos, é uma dádiva. Não pense que isso acontece solitariamente, pelo contrário, é preciso o contato com pessoas. Pessoas as quais você pode falar da sua loucura. No final das contas, a sua loucura foi a salvação, mas a salvação vem dos encontros seguros, confiáveis, estáveis e também surpreendentes, aqueles que sustentam a loucura e dão assistência a sua passagem.
Em uma dedicação analítica sobre as repetições, as ações inconscientes sobre elas vão dando pistas. E de repente surge a curva fora da pista, a tangente. A análise dos sonhos, a escrita, a música, a palavra amiga, dão muitas pistas. Uma rede simbólica que sustenta o corpo alucinante e lhe põe de pés no chão.
No pós-traumático há uma guerra contra o real. Ao superar o trauma, essa guerra cessa.
sábado, 20 de dezembro de 2025
Adaptação livre de "No Meio do Caminho" Carlos Drummond de Andrade
Adaptação livre de "No Meio do Caminho"
Carlos Drummond de Andrade
No meio do caminho tinha um incell
Tinha um incell no meio do caminho
Tinha um incell
No meio do caminho tinha um incell
Nunca me esquecerei desse acontecimento
Na vida de minhas retinas tão fatigadas
Nunca me esquecerei que no meio do caminho
Tinha um incell
Tinha um incell no meio do caminho
No meio do caminho tinha um incell