Acabei de tentar sublimar os pensamentos afogados, como todo mês. Já fiz a cena típica da inveja do sexo oposto: destratei com meu mau humor a pessoa que eu amo e que me acompanha na rotina cruel e também no desvelamento da felicidade em momentos únicos. Enfim, fiz essa poesia ridícula porém válida sobre este momento no qual mistura-se a posição diante da vida, mistura de passado e presente, e a retenção de líquido (sem contar com a influência da lua, meu corpo aquático influenciável gravitacionalmente!).
Dói, de vez em quando, mas dói
Confesso o quanto chorei
Antes do sinal avisar
Vem sugando toda minha água
Nem lembro de sublimar
Retendo toda a minha alma
Sintoma, choro e penar
Santa de pau muito oco
Esqueço de me alimentar
Aturo burrice dos outros
Aquele que sabe tão pouco
Pode até se danar
Queria ter a vida simples dos bobos
andar como um roto
ser assim todo o mês
Quem dera minha cabeça pensasse
Não só por uns dias mas a eternidade
Em ser homem talvez
Vai e volta
Dói, de vez em quando...
Estou enfrentando uma tristeza particular. Minha filha está incomunicável desde a sexta-feira, portanto há quatro dias, devido à visita periódica à casa daquele cujo sangue corre em suas veias.
Aí, faço eu uma visita a minha biblioteca biográfica eletrônica e, dentre tantos títulos, encontro: “para mariana”. Aquele frio na barriga de susto. Se para mim fosse fácil acreditar em sobrenaturalidades, poderia ser até uma mensagem do além, mas remeti meus pensamentos instantaneamente às perguntas: “Eu escrevi esse texto?! Para mim mesma?” Dedos ágeis pelo teclado, abri o arquivo em BrOffice.org e não pude conter minhas lágrimas de saudade, emoção, tristeza, estresse e tudo mais que é possível uma mulher sentir nesse período tão delicado, descrito no início deste texto, que poucos homens têm a sensibilidade de compreender (o meu respectivo, por mais sensível que eu o julgue, não possui!). Eis o texto lido, originalmente em fonte Times New Roman, tamanho 100! Sem erros de ortografia!
“Eu te amo, te adoro muito.
Você é a mulher mais rica do país e do mundo inteiro e a mais generosa.
beijos e tchaus.”
Antes, estava procurando uma saída para essa dor da saudade, mas longe do amor não há... De qualquer forma qualquer parte de mim a acompanhará, e muito dela estará sempre em mim.
Palavras já ditas, saturadas, descansadas, gritadas, enraizadas. Atitudes com raiva, ódio, sintoma. Desestrutura mental, visual, casual. Tremor no corpo inteiro. Desmotivação, depressão, exagero, tristeza, melancolia. Burrice, labirintite. Todas as inflamações possíveis. Sem remédio, no tédio, na paralisia, na agonia. Angústia de viver, dificuldade de viver, imcompreendida, gasta, arrastada, derrubada. Caída, deitada. Arrasada. Descansada. Preguiçosa, mal alimentada. Dia sem alma, sem vida, sem nada. Vazio de ar podre, usado, respirado. Estômago na boca, útero nos poros, olhos no escuro, pernas, braços, cabeça, pescoço, cobertos. Barulho infernal desse silêncio não dito, maldito. Quanto custa a palavra? Quem disse que eu queria aprender a falar, escrever? Foi só pra sobreviver... E agora, por que não posso falar? Pensar já é falar? O que eu faço com as ondas da minha cabeça? Afogo você? Ou aprendo a nadar?
Eu faço poesia esperando o meu mundo mudar
Os que sofrem escrevem, choram, gritam
e amam
Escrevo sem rebuscar, sem inflamar
Quse sem luz, sob a luz de outrem
Escrevo para não piorar essa dor,
tanta dor,
dentro do mim a agoniar
Resolvo em palavras,
essas palavras cujos riscos estou sem enxergar
a minha alma tantas vezes insana, inquieta
solidária porém malévola, má
Alma pública para eternizar
e depois verificar quantos caminhos eu atravessei
quantos os que eu pestanejei
e quantos ainda hei de alcançar
Mesmo em vocabulário ordinário, escasso, vulgar
Assim sem metaforizar
Em palavras publico a minha alma
Para indagação dos fortes
Para reflexão dos exaustos
Para o espanto dos covardes
Em versos expresso o que não sei calar
Em versos impresso o que eu não sei falar.
Por que não se fala da dor? Só poetas, escritores, prosadores, cantores, atores... A felicidade deve ser compartilhada e a dor não? Por quê? Quero entrar para essa escola onde a maioria aprendeu a fingir não sentir dor... aliás, quero não. A dor existe, mas nessas exatas pessoas está no pé, na cabeça, no rabo, no dedo indicador. E a compaixão, onde estará perdida, tentando me encontrar? O que eu soube de mim através dos outros foi pouca coisa, e agora eu sinto dor, a dor do não saber - o que é pior. O mundo está aí, todo dolorido, e as pessoas entram nas redes sociais sorrindo! Então é melhor viver só... Eu não entendo a dor alheia, ou sinto demais e dói a minha impotência...
Sorrir da desgraça alheia pode ser uma maneira de ser feliz, soltar uma gargalhada. O mundo gira e mente, amanhece, entardece, anoitece mentindo. Nada aqui é meu, e o que eu quero não posso querer, porque não gira com o mundo, gira a favor do mundo. É a minha verdade, eu sei, mas por qual motivo irmã dulce vai virar santa?? Ela fez o que todos os seres humanos deveriam fazer, em seus atos partindo dos seus pensamentos. Nada contra aos católicos, apostólicos, parangoleiros. Mas se todas essas pessoas reunidas em massa para rezar o pai nosso e o rebolation ou o thubirabiron, assim o fizesse em prol do social, respeitando o limite do outro, como tuod isso seria indiferente. Ficar indignado hoje é papo careta, retórico, mas não posso deixar de me indignar! Vou convidar Leo Santana para declamar Fernando Pessoa em escolas públicas, vou convidar Ivete Sangalo para incentivar a leitura, a inclusão social. Vou pedir à Preta Gil que além de levantar a bandeira do arco-íris, que levante também a bandeira da educação musical obrigatória nas escolas.
Tradução de While My Guitar Gently Weeps, composição : George Harrison
Enquanto Minha Guitarra Suavemente Chora
Eu olho para todos, vendo que o amor está dormindoEnquanto minha guitarra suavemente choraEu olho para o chão e vejo que precisa ser limpoEnquanto minha guitarra suavemente chora
Eu não sei porque ninguém te disseComo desdobrar seu amorEu não sei como alguém te controlouEles compraram e venderam você
Eu olho o mundo e eu noto que ele está girandoEnquanto minha guitarra suavemente choraCom cada erro nós certamente estamos a aprenderAinda minha guitarra suavemente chora
Eu não sei como você foi distraídaVocê também foi corrompidaEu não seu como você foi invertidaNinguém te alertou
Eu te olho inteira, vejo o amor que aí dormeEnquanto minha guitarra suavemente choraEu olho para todosMinha guitarra suavemente ainda chora
Eu olho de fora que você está se entediandoEnquanto minha guitarra suavemente choraAssim como estou sentado apenas envelhecendoAinda minha guitarra suavemente chora
Que há (de alguém) confessar que valha ou que sirva? O que nos sucedeu, ou sucedeu a toda a gente ou só a nós; num caso não é novidade, e no outro não é de compreender. Se escrevo o que sinto é porque assim diminuo a febre de sentir. O que confesso não tem importância, pois nada tem importância. Faço paisagens com o que sinto. Faço férias das sensações. Compreendo bem as bordadoras por mágoa e as que fazem meia porque há vida. Minha tia velha fazia paciências durante o infinito do serão. Estas confissões de sentir são paciências minhas. Não as interpreto, como quem usasse cartas para saber o destino. Não as ausculto, porque nas paciências as cartas não têm propriamente valia. Desenrolo- me como uma meada multicolor, ou faço comigo figuras de cordel, como as que se tecem nas mãos espetadas e se passam de umas crianças para as outras. Cuido só de que o polegar não falhe o laço que lhe compete. Depois viro a mão e a imagem fica diferente. E recomeço.