segunda-feira, 26 de outubro de 2020

As duas pessoas são movimentos intensos
Suor derramado
Gotejando
Devagar

As duas pessoas são medidas compatíveis 
Espanto no ai
Mãos atadas
Divagando

As duas pessoas são canções 
Tocadas
Entocadas
Demorando 

As duas pessoas passarão 
Em sigilo
Ateado
Queimando






quinta-feira, 1 de outubro de 2020

 Arrastar-se para a morte

Viver

Na dura poesia

Viver

Moinhos de vento

Urgir


Oásis epitafiano 

Cantigas de ninar

Colchão de dormir

Cabeça vazia


Muito vazia

Dura poesia

quinta-feira, 17 de setembro de 2020

História sobre Abano

Pense assim em um rapaz. Um rapaz não muito rapaz. Preto, alto, seus pés são muito grandes. Magro. Nunca foi gordo. Pense assim na visita desse rapaz pra me contar sobre Abano.

Uma voz locutora, pense.

Abano vive lá perto do Bogun*. Eu não sei o que fazia Abano mas vou procurar saber. Eu sei que hoje a rua amanheceu fedorenta, podre. Nem dá pra respirar. Rato podre. Onde é?Merece uma gargalhada de tão grotesca a situação. Ovo podre. Carne em putrefação. Em todas as casas foram postos focinhos humanos. Nada. A casa de Abano. Acabou a história. Acabou a história? A porta da casa de Abano é arrombada. Ali jaz, como previsto, o cadáver. Fim da história... Não senão o cadáver nunca seria parte de uma história! Inchado, fétido. Por baixo dele saía uma gosma. Abano foi fotografado. Talvez um furo de reportagem.

segunda-feira, 31 de agosto de 2020

 Me salve! Me salve, palavra! Transcorra por meus dedos rápido! É urgente! Me dê um pouco de calor, esperança, palavra... Me dê colo. Cante pra mim pois não tem outra coisa que façamos bem juntas. Tem? Tem uns gritos também. Me encobre com alguma banalidade pra eu dormir e acordar em paz. Não me venha em sonhos, palavra, contenha meu grito e dissolva em você. Toda em você, palavra.

sábado, 29 de agosto de 2020

 Ó minha rosa do deserto

Desabrochada pra quem

Quem grita no deserto

Em choros surdos

Nem os uivos de uma rosa dos ventos calarão

À frente pode haver água pra alguém matar a sede 

São imaginações desarticuladas na tentativa de um texto

Texto meu

Com meus eus mortificados ressuscitando 

Um moinho de eu

quinta-feira, 21 de maio de 2020

Lixo

"Você enche meu saco
Você entendeu ?
Porque você enche meu saco com essa ladainha
Agora entra a coitadinha.
Agora é a fase da autopiedade.
Agora é a vez da maluca
Vamos ver mais facetas de sua personalidade doentia."
Só encontro lixo ainda que não esteja procurando. Posso até estar. Eles vêm como plumas de algum bicho bonito e depois transformam-se em lixo. Amor, cuidado, pele com pele... A repetição é o que me intriga. Por que eu posso passar por lugares mais limpos e só encontro lixo. É ele diz (enquanto plumas): "eu te amo. Estou louco por você. Não paro de pensar em você. Eu conheço as marcas do seu carro..." Lixo. Valem nada essas palavras.