segunda-feira, 22 de fevereiro de 2021

P1

 Apático você confessa estar. Está cada vez menos difícil se contaminar pelo vírus. Nesse mundo de tantos vírus tem esse. Tem esse   devastando seres humanos. Hoje eu te liguei porque ontem você telefonou pedindo ajuda e eu não pude dar. Podia até. Mas não podia às quatro horas como seria da sua vontade. Ontem mesmo o governador aumentou o rigor do toque de recolher. Acua as formigas em suas casas mais cedo. Que esse vírus diminua mesmo havendo muitas outras coisas que têm aumentado nos formigueiros do Brasil. Violência contra a mulher, violências contra a criança e adolescente, desemprego, pobreza, alcoolismo. Entendo quando se diz apático. Eu estou apática vivendo no caos no meio de sinais da morte todos os dias. Ainda mais. Eu disse pra você ficar em casa pela realidade. Filas de ambulância em hospitais públicos e privados. Todo mundo deve sair da rua às oito horas e trinta minutos. 

sexta-feira, 4 de dezembro de 2020

Pra quem se enche de saber

 A gente fica cheio de saber

Enquanto vive

Saber das marcas das dores

Saber do gosto das alegrias

A gente vira pro mundo


Reprime

Regurgita

Realiza


Por não saber


A criança não sabe

As crianças se despedindo da infância não sabem

As pessoas adultas não sabem

Minha avó não sabe

É me pergunta se eu sei


Livros

Química

Trabalho


Eu não sei


Pra quem se enche

De saber

segunda-feira, 26 de outubro de 2020

As duas pessoas são movimentos intensos
Suor derramado
Gotejando
Devagar

As duas pessoas são medidas compatíveis 
Espanto no ai
Mãos atadas
Divagando

As duas pessoas são canções 
Tocadas
Entocadas
Demorando 

As duas pessoas passarão 
Em sigilo
Ateado
Queimando






quinta-feira, 1 de outubro de 2020

 Arrastar-se para a morte

Viver

Na dura poesia

Viver

Moinhos de vento

Urgir


Oásis epitafiano 

Cantigas de ninar

Colchão de dormir

Cabeça vazia


Muito vazia

Dura poesia

quinta-feira, 17 de setembro de 2020

História sobre Abano

Pense assim em um rapaz. Um rapaz não muito rapaz. Preto, alto, seus pés são muito grandes. Magro. Nunca foi gordo. Pense assim na visita desse rapaz pra me contar sobre Abano.

Uma voz locutora, pense.

Abano vive lá perto do Bogun*. Eu não sei o que fazia Abano mas vou procurar saber. Eu sei que hoje a rua amanheceu fedorenta, podre. Nem dá pra respirar. Rato podre. Onde é?Merece uma gargalhada de tão grotesca a situação. Ovo podre. Carne em putrefação. Em todas as casas foram postos focinhos humanos. Nada. A casa de Abano. Acabou a história. Acabou a história? A porta da casa de Abano é arrombada. Ali jaz, como previsto, o cadáver. Fim da história... Não senão o cadáver nunca seria parte de uma história! Inchado, fétido. Por baixo dele saía uma gosma. Abano foi fotografado. Talvez um furo de reportagem.

segunda-feira, 31 de agosto de 2020

 Me salve! Me salve, palavra! Transcorra por meus dedos rápido! É urgente! Me dê um pouco de calor, esperança, palavra... Me dê colo. Cante pra mim pois não tem outra coisa que façamos bem juntas. Tem? Tem uns gritos também. Me encobre com alguma banalidade pra eu dormir e acordar em paz. Não me venha em sonhos, palavra, contenha meu grito e dissolva em você. Toda em você, palavra.

sábado, 29 de agosto de 2020

 Ó minha rosa do deserto

Desabrochada pra quem

Quem grita no deserto

Em choros surdos

Nem os uivos de uma rosa dos ventos calarão

À frente pode haver água pra alguém matar a sede 

São imaginações desarticuladas na tentativa de um texto

Texto meu

Com meus eus mortificados ressuscitando 

Um moinho de eu