domingo, 23 de abril de 2023

 Então eu choro novamente

Se é que eu choro

Minha ofegância com meus olhos ardidos

Aliás tudo ardendo na cara

Por que rompe?

Por que vejo (e aqui vem o choro) a sozinhez agarrada em um outro que não existe

Objeto que não existe

Choro uma alteração de consciência

Incontido, abandonado

E os cães latem muito alto em meus ouvidos 

As lágrimas brotam na mágica do corpo 

Água e sal

quarta-feira, 29 de março de 2023

 Mastigando meus dentes e assim triturando nada além dos meus próprios dentes

Triturando pensamentos nem pensados 

Incontrolável e imperceptível

Uma força capaz de dolorir

Enquanto se dá a morte

A vida se atualiza

Desse jeito mastigado

Impossível de engolir

terça-feira, 21 de fevereiro de 2023

Eu vi um menininho parado na frente da nossa varanda em festa. Parece ter sido capturado pelo som do violão, da percussão e das vozes que emanava de lá. Ele estava acompanhado de uma babá, chegou a caminhar mas só até a outra parede da varanda, parecia estático mas os olhos se dirigiam pra dentro da varanda, mesmo eu não sabendo pra onde seus olhos se dirigiam quiçá seus tantos sentidos. Eu estava usando um copo e um canudo de plástico pra tocar, mostrei a ele. Perguntei: você está gostando da música? Ele anuiu quase sem esboçar movimento e o seu olhar na minha direção durou apenas como um flash, rápido, sem sorriso, sem movimentar visivelmente qualquer parte do corpo.

Outra pergunta poderia substituir a primeira: Do que você está gostando? Talvez o corpo dele mexesse mais na elaboração da resposta a essa pergunta. Mas eu não estava trabalhando, estava me divertindo ainda que com profissionalismo. O cachorro fez aproximação mas a criança pouco se mexeu mesmo quando o animal subiu até alcançar-lhe os ombros. Parecia que ele tinha pousado ali em meio a música. Recebi notícias que ele esteve tocando algum instrumento no palco local. Então estava explicado. A contemplação na qual aterrissa o artista captura o corpo do artista.

Ao disponibilizar os sentidos (audição , tato, olfato, visão, paladar) para a música especialmente, tende-se a afinar o corpo de uma forma tal que onde soar uma nota os ouvidos estarão lá.

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2022

Tempo de paz

Parece um tempo ruim

Mas não é

É um tempo de paz


Palavras de amor 

Ações de amor

Beijos de amor

Fé apenas no outro dia

Aurora motivadora

Trabalho contra um tempo ruim 

Mais silêncio

Mais morte 

Muita melodia 

Fé apenas no outro dia





sábado, 22 de janeiro de 2022

Só pra falar do silêncio

 Um tá lá vivendo com um microfone na frente da boca cantando música do karaokê 

Voz embolada, bêbada

As dores de cabeça, nos dentes 

Uma tá quase arrancando toda a arcada com a boca aberta para o ar 

Dormência, insensibilidade 

Uns estão lá fora na frente urrando quando se cumprimentam 

Volume oscila, gritos 


Só pra falar do silêncio.






sexta-feira, 24 de dezembro de 2021

Coisas de fim

Estão todos atrás da tela

Muito longe eles se põem

A conversar

Desabafar

Escutar

Gritar

Xingar

Silenciarem

Por trás das telas estão blindados de mim

Daquilo que lhes faço de tanto mal

Aquilo ora chamado

jorro

Jorro de amor

Uma cronicidade suicida

Assassina

É daqui pra frente

Com telas e sem telas

Aonde está a coragem

Por entretelas

O amor se apaga

O encontro surge

Novo encontro

Há de surgir

O sol está aí pra isso

O mar e o pó da terra

Que da sua morte 

No meu corpo moribundo

Da tristeza de tanto jorro derramado