Aí:
TAB
Sou toda sua
Quando você aparece
Inunda
Em mim
Meu animal
Indomável
Matador
Sem cura
Então eu choro novamente
Se é que eu choro
Minha ofegância com meus olhos ardidos
Aliás tudo ardendo na cara
Por que rompe?
Por que vejo (e aqui vem o choro) a sozinhez agarrada em um outro que não existe
Objeto que não existe
Choro uma alteração de consciência
Incontido, abandonado
E os cães latem muito alto em meus ouvidos
As lágrimas brotam na mágica do corpo
Água e sal
Eu vi um menininho parado na frente da nossa varanda em festa. Parece ter sido capturado pelo som do violão, da percussão e das vozes que emanava de lá. Ele estava acompanhado de uma babá, chegou a caminhar mas só até a outra parede da varanda, parecia estático mas os olhos se dirigiam pra dentro da varanda, mesmo eu não sabendo pra onde seus olhos se dirigiam quiçá seus tantos sentidos. Eu estava usando um copo e um canudo de plástico pra tocar, mostrei a ele. Perguntei: você está gostando da música? Ele anuiu quase sem esboçar movimento e o seu olhar na minha direção durou apenas como um flash, rápido, sem sorriso, sem movimentar visivelmente qualquer parte do corpo.
Outra pergunta poderia substituir a primeira: Do que você está gostando? Talvez o corpo dele mexesse mais na elaboração da resposta a essa pergunta. Mas eu não estava trabalhando, estava me divertindo ainda que com profissionalismo. O cachorro fez aproximação mas a criança pouco se mexeu mesmo quando o animal subiu até alcançar-lhe os ombros. Parecia que ele tinha pousado ali em meio a música. Recebi notícias que ele esteve tocando algum instrumento no palco local. Então estava explicado. A contemplação na qual aterrissa o artista captura o corpo do artista.
Ao disponibilizar os sentidos (audição , tato, olfato, visão, paladar) para a música especialmente, tende-se a afinar o corpo de uma forma tal que onde soar uma nota os ouvidos estarão lá.
Parece um tempo ruim
Mas não é
É um tempo de paz
Palavras de amor
Ações de amor
Beijos de amor
Fé apenas no outro dia
Aurora motivadora
Trabalho contra um tempo ruim
Mais silêncio
Mais morte
Muita melodia
Fé apenas no outro dia
Um tá lá vivendo com um microfone na frente da boca cantando música do karaokê
Voz embolada, bêbada
As dores de cabeça, nos dentes
Uma tá quase arrancando toda a arcada com a boca aberta para o ar
Dormência, insensibilidade
Uns estão lá fora na frente urrando quando se cumprimentam
Volume oscila, gritos
Só pra falar do silêncio.
Estão todos atrás da tela
Muito longe eles se põem
A conversar
Desabafar
Escutar
Gritar
Xingar
Silenciarem
Por trás das telas estão blindados de mim
Daquilo que lhes faço de tanto mal
Aquilo ora chamado
jorro
Jorro de amor
Uma cronicidade suicida
Assassina
É daqui pra frente
Com telas e sem telas
Aonde está a coragem
Por entretelas
O amor se apaga
O encontro surge
Novo encontro
Há de surgir
O sol está aí pra isso
O mar e o pó da terra
Que da sua morte
No meu corpo moribundo
Da tristeza de tanto jorro derramado