domingo, 7 de outubro de 2012

terça-feira, 11 de setembro de 2012

CARTA AO PAI

Meu pai,

neste exato momento, em pleno dia dos pais, penso que estamos passeando pelos mesmos pensamentos, embora saiba que ultimamente pouco conversamos e tenho sido breve nas viisitas. Enfim, esse tempo esta carta irá esquecer. Mas o que esta carta não irá esquecer é o seguinte:

Estamos atravessando a morte, de uma forma quase cronometrada, e eu vou dizer-lhe por quê. Amanhã você irá internar-se e o seu coração permanecerá sob a responsabilidade de alguns homens. Você está com medo? Imagine eu. Estou com tanto medo da morte de meu pai quando estou com medo de morrer. Vou fazer a minha primeira viagem de avião, e o meu coração também permanecerá sob a responsabilidade de alguns homens. Cirurgia comum. Mais banal que isso só uma viagem de avião!

Mas você já viajou de avião. Foi à São Paulo! Gosto daquela foto na qual você aparece com um cigarro na boca e malas arreadas, vestido socialmente, fazendo pose para os paulistas. Você é um profissional brilhante - de office boy à gerente setorial de um banco francês e brasileiro. Toda criança gosta de visitar o trabalho do pai, e eu gostava do ambiente acinzentado do trabalho do meu. Eu ouvia dizer que o nosso plano de assistência médica era o melhor e estudei numa das mais conceituadas instituições de ensino da cidade. Já superei aquela sua falta na festa do dia dos pais. Com as pressões de perder esse trabalho tão amado, as crises do coração. Assíduo, bem relacionado, seus amigos de longas datas foram seus colegas de trabalho.

A sua parte ruim é pública, todos sabem. Comentários assim soam como acusações e por isso não prosseguirei com a parte ruim. Só não posso deixar de registrar o domingo quando uma das minhas irmãs não queria emprestar o seu cobiçado quadro negro, você interviu, permitindo que eu riscasse todo o chão da casa.

Que consigamos depois de atravessarmos esse fantasma, poder rever os nossos. Seremos muito mais felizes e com certeza enxergaremos esse sentimento em lugares ou coisas que talvez ninguém enxergará. Espero que o momento de febre para você e desespero para mim finalize-se da forma que as mãos dos outros homens, juntamente com as nossas mãos (pois pertencemos ao mesmo mundo), estejam no comum desejo de viver. Somente no desejo, não no objeto desse desejo. Isso é psicanálise. E o desejo na psicanálise é pulsão. No tempo desta carta você já saberá o que é um psicanalista, pois serei uma, se o avião voar e aterrissar, se o seu coração parar e depois voltar a pulsar - quando a morte conseguirmos atravessar. Talvez eu tenha chegado ao final da minha análise e você já iniciado a sua.

Feliz dia dos pais, meu pai.

quarta-feira, 1 de agosto de 2012

Tempo passado

Eu vejo
Chego perto
Com olhos de luneta
Você cresceu
Virou homem
Casou
Teve filhos
Você amadureceu
E a sua fé?
Penso que cegou
Atravessada pela lança da morte
Ainda faz sua orações
Mantra a chamar pela calma
Quando me vê
Muita luz
Outras "portas da rua"
Nua sempre estarei
Enquanto você viver

quinta-feira, 12 de julho de 2012

Historinha - Segunda VIA

Minha identidade está num manicômio
Em Salvador
O meu plano de saúde também
Quando irei buscar?
Não sei
Penso que decidirei retirar a segunda via
Certamente
Agora faço uso da minha habilitação para dirigir
Ele disse: "você está dirigindo muito..."
Bem
Eu gosto dele
Conversar, trepar, estudar
Pronto
Vou retirar a segunda via
Caminho é um
Só nosso.

domingo, 1 de julho de 2012

Grades

Foi uma noite bastante agitada. Ouvi movimentos e conversas pela casa, despertando do meu sono que mal tinha se iniciado. Homem branco, de barba feita, palavras pausadamente claras – um ladrão havia entrado pelo basculante do banheiro.

Mas como?

O apartamento é no terceiro andar do prédio! Ele amarrou um barbante na tampa de garrafa de refrigerante, lançou pela pequena janela e, fime nesta "corda", subiu num rapel. Do banheiro, partiu para o primeiro quarto onde estava o casal que assistia à televisão, e os rendeu. A voz de assalto foi branda para que não houvesse reações desesperadas ou gritarias. Então iniciou-se a negociação.

Eu acordei e não foi fácil entender os acontecimentos. Assim comecei a ouvir as explicações:

- Isso é um assalto, esse rapaz vai levar tudo.

- Sim, eu levarei tudo.

Engrenada pelo tom calmo da voz do assaltante, subjetivei:

- Não, ele não vai levar tudo. Olhem só, o observem. Ele precisa de amor, de carinho...
Estava posta a cena, o casal, eu e o ladrão dialogando na cama do casal. A mulher com cara de interrogação depois da minha fala, o homem certo de que o ladrão iria levar tudo, já disposto a separar os pertences, e o ladrão calmo, de olhar brando e fala segura reafirmando o seu objetivo que, de alguma forma, tranquilamente se cumpria.

Decidi chamar a polícia e, imediatamente sou advertida:

- Onde já se viu chamar polícia pra ladrão que esteve dentro de nossa casa?

Aí eu sugiro:

- Precisamos colocar grades, grades em todas as janelas...

Essa era a decisão mais coerente, mais acertada.


Hoje pela manhã acordei e deparei com a minha aliança de casamento fora do meu dedo, emaranhada entre o cobertor e eu.


terça-feira, 19 de junho de 2012

Jorge e Luiz

Eu, na confusão com pensamentos, em palavras escutadas, ditas, interpretadas. Paralisada. Sintomática.

Só assisti à chamada na tv dizendo que investimento no ensino primário determina riqueza de cidade após 100 anos, conforme pesquisadores da USP, uma homenagem à Luiz Gonzaga, flashes de um documentário sobre Jorge Amado e às propagandas sobre o remake de "Gabriela" - o bastante para tramar meus conteúdos flutuantes.

Além das imagens televisivas, vi Luiz Gonzaga uma única vez, no carnaval, em cima do trio elétrico, sentado, sem chapéu, bem velhinho. Alguém me disse: "olhe Luiz Gonzaga ali!" Eu, debruçada na janela em plena Carlos Gomes. Meu marido disse que a sua lembrança foi de um show no Parque de Exposições, acompanhando seus pais. Lembrança e tanto! Na verdade, a imagem que vi de Luiz Gonzaga veio só decorar os meus registros musicais - é como se a sua música já nascesse com a gente que é nordestino. Alguém foi ninado, sacodido e alegrado pelo baião. Um homem que saiu da rigidez do exército, conheceu parceiros de sucesso, adotou filhos e plantou artistas.

Jorge Amado nunca vi ao vivo. Todas as vezes que apareceu na televisão, capturava a minha atenção. Até porque, que casa maravilhosa era aquela? Que mulher sorridente sempre ao seu lado! E os cachorros que não desgrudavam... os peguentos pugs! Li um único livro - Mar Morto. Belíssimo, atraente. Senti-me parte do livro. Vi poesia. Li Salvador. Penso que deve ter me bastado. A música de Caetano, Gerônimo e Dorival já me contaram algumas outras de suas histórias...

Então, flutuando eu me trouxe aqui, numa escrita fisicamente necessária a qual não sei bem ao certo a finalidade. Pensei em meus investimentos, no meu trabalho. Nesse momento já não tenho dúvidas sobre se há vida após a morte. Tampouco medo da vida, tampouco medo da morte.

Depois de 100 anos muita coisa há...

sábado, 9 de junho de 2012

Namorados

O meu amor é
Soteropolitano e,
no dia em que casamos,
Geminiano

O meu amor é de onda
De correntezas
O meu amor é de beleza
Doce da minha lágrima
e é a minha vez de voar

O meu amor é mar
São lençóis
Arrecifes
Meu amor é maluquice
É brando, é cigano
Um Miró, um Moisés
Michelangelo

Um cigarro
É um tapa

O meu amor é meu

O meu amor sou eu
Caminhando em você