O vento entra assobiando no quarto. O corpo está estático. Imagino que o assobio toque sua nuca à mostra. Os olhos estão cerrados, os lábios unidos, a barriga voltada pro colchão. É sob a luz escassa do final de um dia que eu a vejo daqui. Começa a movimentar os pés, alisando o lençol. Os quadris acompanham. São movimentos circulares, um rebolado... É bonito ver as ancas se mexerem. Suspeito que esteja cantando, porque rebola, rebola... Cantando no pensamento e a voz saindo pelas ancas.
quinta-feira, 4 de maio de 2017
o Menina baiana - claquete 42
CENA: Quem guiou a cega
O MENINA BAIANA: Um dia eu quase morri afogada e antes quase deixei que ela morresse afogada. Fiquei assistindo a ela quase morrendo e quem me salvou veio de lá e salvou ela também. Os mais velhos sabem mais sobre a morte. Eu quase não sei. Já vi mortos. Já senti o cheiro de sangue derramado. Mas sei quase nada da morte, não mais que os mais velhos. Ela não cria cascas como a mágoa, parece que escancara a vida. Perplexiza com moderação a existência e toma nota de quem decidiu por uma existência robótica. Em algum momento paralisa. Um colapso existencial. Entre o ser ou não ser um robô, na saída do não ser um robô e na constatação de se ver um robô. Um quase robô, porque a inquieta plasticidade de ser fez o quase, sempre, e trouxe o colapso.
"fui eu o violado, rábula doutor, meu Deus!" (Mateus Aleluia)
O MENINA BAIANA: Um dia eu quase morri afogada e antes quase deixei que ela morresse afogada. Fiquei assistindo a ela quase morrendo e quem me salvou veio de lá e salvou ela também. Os mais velhos sabem mais sobre a morte. Eu quase não sei. Já vi mortos. Já senti o cheiro de sangue derramado. Mas sei quase nada da morte, não mais que os mais velhos. Ela não cria cascas como a mágoa, parece que escancara a vida. Perplexiza com moderação a existência e toma nota de quem decidiu por uma existência robótica. Em algum momento paralisa. Um colapso existencial. Entre o ser ou não ser um robô, na saída do não ser um robô e na constatação de se ver um robô. Um quase robô, porque a inquieta plasticidade de ser fez o quase, sempre, e trouxe o colapso.
"fui eu o violado, rábula doutor, meu Deus!" (Mateus Aleluia)
quarta-feira, 3 de maio de 2017
o Menina baiana - claquete 41
CENA: O beijo
O MENINA BAIANA: Eles sentem cheiro, jeito. Elas também. É tudo bicho, não tem jeito. Agora o cheiro sai pela minha boca que parece perfumar, porque eles olham com pupilas dilatadas pra ela na hora que eu abro com meus lábios pintados de batom vermelho e se aproximam, fecham os olhos e, se eu deixar, querem me beijar. E dizem "cante"... Eu me assusto muito. "Mas eu não tenho instrumento aqui, eu toco mal o meu violão"... Eles dizem "cante, só cante". Eu obedeço. Quando eu canto eu não sou dona de mim. É ela quem me tem. Eu deixo que me peguem por causa dela. Eu deixo que passem a mão nas minhas pernas, que toquem nos meus cabelos, que segurem a minha mão e digam que não conseguem soltar. Que se aproximem do meu rosto pra quase me beijar. Que me desejem visceral. Eles chegam pelo vento, eles vêm na minha voz, não em mim, não em mim.
"Lascívia dama, ela era só provocação, provocou tanto que o negão virou vulcão" (Mateus Aleluia)
O MENINA BAIANA: Eles sentem cheiro, jeito. Elas também. É tudo bicho, não tem jeito. Agora o cheiro sai pela minha boca que parece perfumar, porque eles olham com pupilas dilatadas pra ela na hora que eu abro com meus lábios pintados de batom vermelho e se aproximam, fecham os olhos e, se eu deixar, querem me beijar. E dizem "cante"... Eu me assusto muito. "Mas eu não tenho instrumento aqui, eu toco mal o meu violão"... Eles dizem "cante, só cante". Eu obedeço. Quando eu canto eu não sou dona de mim. É ela quem me tem. Eu deixo que me peguem por causa dela. Eu deixo que passem a mão nas minhas pernas, que toquem nos meus cabelos, que segurem a minha mão e digam que não conseguem soltar. Que se aproximem do meu rosto pra quase me beijar. Que me desejem visceral. Eles chegam pelo vento, eles vêm na minha voz, não em mim, não em mim.
"Lascívia dama, ela era só provocação, provocou tanto que o negão virou vulcão" (Mateus Aleluia)
o Menina baiana - claquete 40
CENA: Bombambulante
O MENINA BAIANA: Volte volte volte venha com viver comigo mais tudo é só o tempo o fato é que eu me falo sou uma bomba ambulante. Mariana Magalhães. Lembro o quanto eu fui apaixonada. O quanto esse meu jeito não é o melhor pra me relacionar com as pessoas. Eu prefiro ficar na minha casa. Sou só um fetiche. Sou só uma vaidade na vida de quem se aproxima. Não tem como voltar pra útero. Sua presença marcou mesmo. Mais tarde estarei mais livre. Você não tem mais energia pra estar perto de mim. Eu sabia que isso ia acontecer. Eu exijo demais. E por isso ninguém fica. Ninguém. Estou indo embora. Não adianta falar, ela mata, eu estou morrendo. A vida é uma doença. Grave. Tinha uma arma na minha mão e o gatilho estava quebrado. Eu vou consertar.
O MENINA BAIANA: Volte volte volte venha com viver comigo mais tudo é só o tempo o fato é que eu me falo sou uma bomba ambulante. Mariana Magalhães. Lembro o quanto eu fui apaixonada. O quanto esse meu jeito não é o melhor pra me relacionar com as pessoas. Eu prefiro ficar na minha casa. Sou só um fetiche. Sou só uma vaidade na vida de quem se aproxima. Não tem como voltar pra útero. Sua presença marcou mesmo. Mais tarde estarei mais livre. Você não tem mais energia pra estar perto de mim. Eu sabia que isso ia acontecer. Eu exijo demais. E por isso ninguém fica. Ninguém. Estou indo embora. Não adianta falar, ela mata, eu estou morrendo. A vida é uma doença. Grave. Tinha uma arma na minha mão e o gatilho estava quebrado. Eu vou consertar.
terça-feira, 2 de maio de 2017
o Menina baiana - claquete 39
CENA: Cantora Criada
O MENINA: Eu não busco mais nada. Só cantar. Cantar com qualquer instrumento me acompanhando, cantar em público, atirar minha carne pra quem quiser elogiar ou meter a faca. Se eu morrer em cima de um palco, pode ter certeza que morri feliz. Isso não é bom. Eu só tenho esse fio de vida. Viver por um fio não é bom. Será que é isso? Viver com a morte é viver por um fio ou sem aquela vontade? Quando tanto faz viver?
O MENINA: Eu não busco mais nada. Só cantar. Cantar com qualquer instrumento me acompanhando, cantar em público, atirar minha carne pra quem quiser elogiar ou meter a faca. Se eu morrer em cima de um palco, pode ter certeza que morri feliz. Isso não é bom. Eu só tenho esse fio de vida. Viver por um fio não é bom. Será que é isso? Viver com a morte é viver por um fio ou sem aquela vontade? Quando tanto faz viver?
segunda-feira, 1 de maio de 2017
A corda
Uma corda bamba
Uma corda fina, muito fina
Uma corda bamba
Eu em cima da corda
Como queira imaginar
Em cima da corda
Bêbada
Fumada
Chapada
Dopada
Drogada
Uma corda bamba
Talvez uma nota
Se eu consigo me equilibrar
Uma corda fina, muito fina
Uma corda bamba
Eu em cima da corda
Como queira imaginar
Em cima da corda
Bêbada
Fumada
Chapada
Dopada
Drogada
Uma corda bamba
Talvez uma nota
Se eu consigo me equilibrar
o Menina baiana - claquete 38
Distante de um existencialista ateu está o menina baiana. Ele diz não poder ser o que ela quer que ele seja, enquanto ela já havia esquecido de querer que ele seja alguém além de apenas existir aos ouvidos dela, assim, perto dela. Agora ela está ali sentada com a ventania que faz a brisa do mar. Mais cedo um arco íris se apresentou desse mesmo lugar de onde eu a vejo. A coluna está ereta e seus lábios se mexem e se tocam. Há pouca luz, eu não enxergo sua face... Seus cabelos pretos...O queixo está apontado para o chão. O olhar fixo. Nada mais além disso eu vejo daqui.
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