quarta-feira, 17 de abril de 2019

ARREPIOS E ARREPIOS

- Ao mesmo tempo que a missão se cumpre em comunhão, ela se cumpre na solidão do missionário. A missão é aquela coisa que chama a vida. A vela pra Mãe está acesa olhando pra mim, eu quem me pus lá, veja você. Agora ela me presenteia e eu acendo uma vela enquanto o corpo vibra e quase eu recebo pela minha ori, aqui mesmo, em pé, esperando a gota pingar da vela. Parece que foi a primeira vez que a fé passou pelo meu corpo. Onde está Babá?


Babá, ela sempre pensa em você e está consciente desse infinito missionário, pois Dona do Terreiro ela é. Você lhe ofereceu esse presente dos ceus e veio de bom grado. Se não fosse você agora ela não agradeceria direito.

- E aí?

- Chupa toda.

domingo, 14 de abril de 2019

Não é amor, é uma busca por algo que ninguém sabe mesmo o que é. A outra língua desfoca o pensamento choroso. O pensamento choroso é aquele pensamento que invade quando é preciso tomar decisões difíceis. O amor é como tentar entender o mundo e para onde ele se dirige. Há o mal estar eterno, a intolerância eterna, a luta eterna pelo simples viver. Há competição entre os irmãos (e as irmãs). Machos imbecis cutucam fêmeas sado-masoquistas. Por quê? Um escolinha bem feitinha de machos imbecis e de fêmeas sado-masoquistas. Então, retornemos ao eu de que jeito contra a imbecilidade dos machos que cutucam fêmeas sado-masoquistas. Nota que fêmeas sado-masoquistas são as filhas dos machos imbecis. O peito de femeas palpita quando aprende a andar e depois olha bem e ouve bem macho desdenhar porque no meio de suas pernas... bem no meio de suas pernas... Vê no meio de suas pernas? O buraco do mundo. Vê. Onde a vida passa. Vê? Aquilo que chamam de maior amor do mundo saindo dali do meio. Vê? Vê, macho? Olhe direito. Vê? Está cego macho? Pra quê luz no buraco? Meta a mão, macho! Quero ver se você tem coragem de meter a mão no buraco do mundo que dá passagem à vida. Você, macho, mata a vida do buraco nasce. Por quê? Por que você acredita que é macho?

sábado, 6 de abril de 2019

Entre o deprimente e a luz do sol ou a água fresca

Uma semana completada com o corpo sentado por quase quarenta horas. No último dia dessa semana de corpo febril, sai quase correndo da cadeira ao lugar mais reservado daquele lugar: a cabine no banheiro feminino. Por pouco berraria ou cantaria em lágrimas ali mesmo na cadeira, no meio de toda a gente que um dia (ah, esse dia) reclamou de umas gargalhadas genuínas. Foi defecar de tanto que segurou o corpo trêmulo e fóbico. Ambiente confinado, defeca, urina, contorce a face em choro já impossível de conter. Coloca Milton Nascimento dentro dos ouvidos. Coração civil, fé cega faca amolada, travessia, me faz bem...ponta de Areia. Aciona a descarga e completa a trivial limpeza das partes. Corpo contorcido chora ainda. Vai pro chão e o encolhe como um feto dentro na barriga. Milton Nascimento enfiado nos ouvidos. Mas que diabos! Que arranjo sensacional em me faz bem! Que coro lindo dessas vozes infantis.

sexta-feira, 5 de abril de 2019

Eu passo por Ondina e penso que é o último dia daquele dia em Ondina
A casa parece se alastrar pelas ruas para além
Eu esparramada pelos chãos da cidade
Ora radiante, ora mendicante
Uma crença no nada! Sustentem a mim em pé, meus amores!
Sem vocês eu morro
E o morro não tem vez

quarta-feira, 3 de abril de 2019

A DONA DO TERREIRO VAI ATÉ O CHÃO

- É até o chão, Babá? Eu desço. Agora deixe comigo. Você sabia que aqui já foi uma roça? Isso não é estranho?

- É.

- Estamos em loteamentos do terreiro. Claro que é impossível. Veja o destino o que fez, minha Nossa Senhora, Babá?!

Ela foi embora, disse querer acordar no axé dela. Pouco importa se voltará, as pessoas falam em desapego. Sente o corpo ressoar as suas vibrações, Babá?

ESCANCARANDO O JOGO

As contas lhe doem o pescoço. Você deve saber o que é aprender a gostar. Assim, saindo de casa em um dia nublado com quase toda a família dentro de um automóvel sempre indo e ver Alexandra toda de branco parada na calçada e depois ver Antônio passar e, ainda que buzine, ele dificilmente escutaria e o sol surgindo. Esse pode ser o último dia no imenso terreiro dessa dona.

ABRINDO O JOGO

Mais uma vez nas águas os dois. Águas do ceu à beira mar. Ela se distancia diante do corpo dele sem sinais de disponibilidade. O som se espalha e ela rodeia esse terreiro pra sentir por todos os lados o que emana daquele arco-íris esbranquiçando em muitas notas.
- Isso é amor.
- Eu sei.
- Eu não direi mais nada sobre o levante, faça. Muitos estão sendo exilados e as notícias sempre chegam até você antes que eu as compartilhe.
A água corre pelos seus corpos bastante próximos agora. É na ori, Babá, onde você quer que ela deslize suas mãos em água? É água pura, quando tem que passar nem pede licença. Cuidado com o tempo, ele urge.
A Dona do Terreiro está comovida com a entrega. Às vezes te trata como uma criança, Babá.