terça-feira, 9 de julho de 2019

Isso não é sinal
Hoje não
Mesmo com educação
Melhor não
É apenas a realidade

Se sabe do sinal da chuva
Nem sempre chove
O carro buzina
O sinal amarela
A noite se revela

Essa mão segurando
Meu braço

Eu queria fazer
Um travesseiro
Dos teus braços
Láláraraiá


sábado, 6 de julho de 2019

Estou querendo chorar
A mesma dor
O choro fica nas batidas rápidas do coração
Fica nas mãos trêmulas
Quem sabe essa poesia acene pra um choro
Ele tem que vir
Pra noite seguir
O novo dia raiar
O choro de muito ilusão já se perdeu pelo querer
É tão querido que nem lágrima faz
Choro por dentro enquanto meus olhos ardem ainda em busca do bem-querer
Mal-me-quer
Mal-entendido
Mal-estar
Mal-dizer

Bem sabido o choro que não vem
Quando ele falta e faz falta
As palavras aparecem em farois altos na estrada escura
Quando ele falta e faz falta
Escuta o mato crescer
No chão
Na terra
Do deslizamento de um todo pela parte
Que impede de fazer água jorrar
Senão pela lavagem nas repetições mórbidas do que é amar aquele ponto final desde o seu início.

sexta-feira, 5 de julho de 2019

O local do acidente foi revisitado apenas hoje
Um acidente comum 
As conversas trazem os dados daquela comunidade
Pensou que ficaria aleijado?
Pensou
Uma semente de sucupira por alguns dias no suco de uva
Pensou?
Todo mundo sabe como é
Mas ninguém acredita na dor
A dor de quem geme a dor
É a dor do mundo humano dessa dor
A palavra faz a memória das dores e ajunta na lombar
Se está tudo aderido pelas vísceras
Cante com a alma
Nossa senhora agirá em livramento de todas as dores



Pra quê calar se todo ser é um ser digno de miséria
Da mediocridade frágil de uma dor incapacitante
Falar da surpresa do tapa na cara
Das mãos inusitadas do tio por baixo nas pernas da criança
Dos sustos em berros do homem que paga as contas
Se há pra falar é porque há coro
Quem não viu, sentiu, verá
Falar é dissolver-se em novos corpos
Tapar o ponto de um dor é entupir o ponto da dor do próximo
Se há gargalhadas sobre o medo de ser enterrado vivo
Há medo de ser enterrado vivo
Se na solidão o vizinho é convidado a dormir no mesmo colchão
Há impaciência em dormir só
Se esta hora está morta
E muitos sustentam suas colunas em condições ideais
A dor faz girar esse defunto

quarta-feira, 3 de julho de 2019

Era novamente arrumar o necessário e sair da cidade. Estado de emergência. Cada um com os seus e o cão solto. Cadê o cão? Cadê o cão? Que tristeza a mochila nas costas e a falta do cão... Ele virá... Um macho encontra a fêmea com seu faro por qualquer caminho, quando ele quer. Está tudo escurecendo, há muitos perigos. Se a memória está nos corpos através das palavras, a fuga é para um quilombo.  Os pulsos unidos guardaram a memória dos punhos amarrados e chamaram isso de uma manifestação de um espírito obsessivo. Fumaça e sinais de matança e correria. A cada 23 minutos um preto é morto. Onde está o quilombo nesse novo globo que vigia até o crescimento de pêlos pubianos? Onde está o quilombo nessa terra matada mais um pouco a cada dia? Um quilombo em qualquer lugar de esperança e ação.


Canção

- Ninguém entrou pra se sair
Acorda, amor
Acorda, amor
Toca esse corpo
Ainda há tempo
Ele se esfacelará e definhará
Na sua incapacidade
Nunca mais irá te visitar

- Menos drama, amor
Aqui jazz
Vou até a sua porta
Pra você me banhar
Daquele perfume que cai bem em suas narinas
Sou andaluz de Gandhi galopando sem relevo
Estarei para sempre fora
Há tantas pessoas especiais

terça-feira, 2 de julho de 2019

O chão do mar


Mergulhava em água límpida e salgada bem fundo, cheios de oxigênio os pulmões. Um mergulho nas nuvens de tão suave. Pensava no medo. Mas só pensava. Por milésimos de segundo pensava. Pelo resto do tempo mergulhava simplesmente. Havia testemunha durante essa ação. Tal qual um peixe ágil, muito ágil, chegava perto do chão do mar e desviava. Que coisa linda! Que água quente! Essa é a fonte do ser? Há luz do sol no chão desse mar. Antes e depois do mergulho foi esquecido. Pouco importa o mergulho. Deve ser essa a visão da morte. A morte é bem-vinda.