quinta-feira, 15 de maio de 2025

É possível prever o não dito pelo dito

 É possível prever o não dito pelo dito. É um trabalho analítico. Há uma lógica no discurso, principalmente via negativa.  A pessoa nega para conseguir falar sobre o que revela o seu inconsciente. Isso é Freud, em  A Negativa. O inconsciente não registra as negativas. Portanto, se eu escuto: "eu não quero me viciar em nada", logicamente eu estou bem perto do vício porque falei dele, ele surgiu no discurso. É um caso em que foi possível prever o movimento de um sujeito que em seguida confessa o vício em jogos. Também foi possível prever, pela via do discurso, uma desorganização do sujeito quando a repetição é detectada. Situações de abuso infantil também, possível prever, ver, e intervir. Parece mentira, é incrível e acontece. É assustador, um surf numa onda gigante quando o que se previu aconteceu. Era para eu dizer: tende duvidar. Mas eu disse: tente não obedecer. Um equívoco dentre acertos. É preciso enxergar a estruturação psíquica para lidar em cada caso. 

sábado, 10 de maio de 2025

 Quando o sol brilha menos na minha cidade de sol, meu corpo parece responder. Quando o dia chega sem o brilho, meu corpo demora. E se o dia passa enuviado, recolho meu corpo desanimado. O sol me traz a rua, seca minhas roupas, acorda meu sono e me traz vontade de viver. Muitos dias de chuva na minha cidade de sol e mar, mexem com meu corpo. 

Posso buscar encontrar saídas sem que nada esteja relacionado com o sol brilhante. A relação edípica quando não se resolve, vive pairando, faça chuva ou sol. Hoje eu até consigo colocar em palavras o meu sensível, também é possível endereçar essas palavras, mas ainda me persegue a sensação de que é melhor não dizer por se tratar do que é apenas sensível para mim. É muito notório quando um adulto foi uma criança bem amparada, quando a  suas dores e seus choros foram dedicados a devida atenção. Mas o desamparo e ataques quando vividos na infância deixam sequelas que nem anos e anos de análise parecem trazer alívio. O alívio pode vir com a morte de um dos lados do triângulo, troncho, tremido, temido. É triste ter que abandonar para se salvar. É difícil falar de uma dor quando o outro diz que todo mundo sente dor, menosprezando suas declarações. 

Quando a dificuldade de viver se alastra por tantos anos, parece melhor não viver. Um dor indizível mesmo que seja atendido o pedido de falar sobre ela. Não adianta. Quando doi, é preciso parar, afastar, proteger os berros e as lágrimas, esconder, fingir, mentir. Enxergar as incapacidades se possível. Uma história de solidão, de insubmissão, de revolução, é sofrida. Se o amor não é bem entendido é porque foi corrompido por gritos, abusos, por uma responsabilidade pesada quando o corpo infantil mal se aguenta. 

Dizer te amo não é o mesmo que escutar. Existem palavras da boca para fora. Existem marcas de dentro, bem no fundo. Cicatrizes invisíveis, mesmo deixando a vida levar, ela carrega sem saber se diz, se cala, se chora, se grita, se escreve, se espera o sol brilhar mais uma vez.

terça-feira, 6 de maio de 2025

Que me toca

 Eu falo com música porque música é uma fala, portanto conecta, une, envolve. Pessoa por pessoa fala música. Está no corpo em vibrações, ondas invisíveis pelos ouvidos, elas dizem, por isso eu falo. Falo a língua , meu Outro, música encarnada, que me toca sem nem eu tocar. Apenas mergulho e subo em um barco sem remos, dando todo o meu corpo para falar essa língua que me guia.

quarta-feira, 30 de abril de 2025

A história do bombom envenenado

 O primeiro dinheiro que recebeu gastou tudo em doces mas lembrou de guardar um bombom para ela. Dias e dias cujos dias nem saberia contar, foram passando, o bombom guardado esperando o dia do próximo encontro chegar. Afinal, teria que pagar para se encontrar e fazer o seu próprio trabalho por via dela. Gesto genuíno, puramente de amor, se realizou.


O bombom foi parar em minhas mãos e eu quis registrar, mas não. É um pagamento e se fez. Justamente no dia depois do outro que foi resolvido a redução da ingestão de doces. A vontade ultrapassa a resolução. A lógica é do inconsciente. Como pensar em quem sabe um doce e ele se materializar nas mãos pequeninas de quem o oferece às minhas mãos.


O corpo banhado de histórias trágicas barra as mãos rasgando a embalagem rosa choque. Pode estar envenenado o bombom. Ele duvida do amor encarnado na transferência que quer envenenar. A boca tira um muito pouco da cobertura e espera passar a saliva pela garganta. Nenhum sinal de mal. Nenhum sinal de morte. E os dentes mordem. A língua adocicada pelo veneno do amor.

segunda-feira, 28 de abril de 2025

Quem já cantou se olhando no espelho? Abriu bem a boca, fez as sílabas melódicas com bastante afinco, de cabelo solto e despida nesse reflexo? Quem já teve que olhar pro espelho quando o avião arremessa e de vez em quando durante a viagem para suportar a travessia?

Pela ampliação do espelho, o conforto e, por isso, eu vejo, cada vez mais as pessoas ganhando dinheiro por ficaram falando pra uma câmera, conversando sozinho, sobre o que sai somente da sua boca, se  foi pago pra falar com ninguém. Há uma psicose ordinária, dizem os psicanalistas de hoje, uma estruturação com a imagem do corpo que pode falhar na operação de simbolização, de entrar na palavra e metaforizar e desarranja o empenho da comunicação.

Usar o espelho para ampliar é mais do que se colocar em frente ao espelho. A amplitude mostra que há mais espaço pra viver e tem pessoas nesses espaços, de maneira espaçadas, mas presentes - , é perceber o outro.

Fazer contato com o outro. Isso tem surgido ao analisar as capacidades de fazer contato das pessoas. Ouvi dizer que Freud disse que é a pior das angústias a relação entre seres humanos.

Se as crianças estão expostas passivamente às telas ou fazendo-as de espelho que mira enquanto canta no espelho, só e despida, há um tempo lógico que não passa, mas o dinheiro de hoje pode pagar.

segunda-feira, 21 de abril de 2025

A inquietude é vida quando ela atiça a criação. O mal-estar também é vida, acredite se quiser. Posso até acreditar mas não me conformo, vivo iludida, buscando um dia a paz de repente se assentar. A escrita já não faz mais efeito se não for para informar uma experiência depois de ler tantos livros e artigos e mostrar que sei para aprovação de quem lê, mesmo sem saber de nada. Estou cansada nesta etapa e receosa sobre as palavras já não mais me salvarem. Estou com muita saudade da praia, do som das ondas, do chão santo de um palco de teatro. Se a reza não tem lugar, como andar rezando? Se eu disser que hoje não caminho pelas pedras, será que é possível acreditar na minha palavra amanhã? Aguardo o esquecimento para apoiar as angústias dos traumas da vida. Aguardo o sol na minha cara impedindo que meus olhos fechem porque nasceu o dia. O dia passando com o cão, com o trabalho, com a higiene, com o urubu no meio do caminho abrindo suas asas pousado no chão da calçada querendo dizer algo que eu entendo como um comando para eu me afastar. Nesse andar para lá e para cá decidindo cada afastamento e cada aproximação desgasta a vida que duvida enquanto cambaleia. A sensação é de não ter forças para aguentar os raios dos próximos dias, mas os exames dizem que vou bem, sem tumores, com o sangue bom, lúcida e só. Por mais que o vento sopre, balance as folhas na sassanha, por mais que cantar desapavore e eu durma, a vida é incurável. Por mais que a boca enlargueça em um sorriso, os dentes mentem, escuros e quebradiços. As queixas engolidas por serem apenas queixas, emperram pedidos de companhia, pois cada um tem a sua vida e, se não se aproximam diariamente, talvez temam a explosão do raciocínio que se acha lógico ou a precariedade da capacidade de se relacionar.