CENA: Cientista
O MENINA: Uma coisa parece que tapa a outra. Recebi de mim mesma Eu me desfiz de tudo depois de começar a ler a náusea. Mentira. Não me desfiz de tudo. Me desfiz dos livros. Assim como Raquel de Queiroz queimou meu couro debaixo do sol. Mas Raquel foi indicação da escola, Sartre não, foi coisa da minha cabeça mesmo. O esboço eu li primeiro. Entendi nada. Nada não existe. Temos a ciência pra explicar isso. A minha vem assim: a gente se dirige à morte e esse caminho vive oscilando densidades, saímos de áreas menos densas em direção às mais densas, atravessando-as. A densidade é tão baixa, tão baixa que às vezes parece um vácuo. Pode ser. Meus vácuos comunicantes! [gargalha e seu corpo se contrai] Me comunicou até a náusea. Passei mal passando as folhas. Nada não existe. De nada adiantou. Foi um duto até o existencialista ateu. Foi um duto.
domingo, 23 de abril de 2017
o Menina baiana - claquete 18
CENA: Com bomba no peito
O MENINA: Muitos anos no divã, a coisa vira um hábito. Mesmo longe dele, um hábito. Hábito de entrar muito na coisa e ficar entrando, é um grande labirinto fuçar o inconsciente. Por isso eu entendo quando ele diz "deixe a psicanalista". Entendo e me rasgo toda. Ele disse que é assim mesmo. Não só ele. Mas foi ele quem me disse: deixe. Deixe ela ir. Talvez ele tenha dito com isso: deixe ela ir e venha. Mas não foi bem assim. Deixe ela ir e vá. Como se eu já não tivesse indo. Olhe eu aqui, sentada nessa sala. Vê. Eu achando que sou. Nada. Só. A minha pesquisa. Vou cantar dia 26 de maio. Eu criei o Bombambulante há um ano, depois de passar treze criando o hábito de deitar, falar, associar livremente. Hoje tive vontade de me desfazer desse nome. Sinto ele bem no meio do meu peito... Se eu fosse filha de puta em Calcutá, estaria na linha.
O MENINA: Muitos anos no divã, a coisa vira um hábito. Mesmo longe dele, um hábito. Hábito de entrar muito na coisa e ficar entrando, é um grande labirinto fuçar o inconsciente. Por isso eu entendo quando ele diz "deixe a psicanalista". Entendo e me rasgo toda. Ele disse que é assim mesmo. Não só ele. Mas foi ele quem me disse: deixe. Deixe ela ir. Talvez ele tenha dito com isso: deixe ela ir e venha. Mas não foi bem assim. Deixe ela ir e vá. Como se eu já não tivesse indo. Olhe eu aqui, sentada nessa sala. Vê. Eu achando que sou. Nada. Só. A minha pesquisa. Vou cantar dia 26 de maio. Eu criei o Bombambulante há um ano, depois de passar treze criando o hábito de deitar, falar, associar livremente. Hoje tive vontade de me desfazer desse nome. Sinto ele bem no meio do meu peito... Se eu fosse filha de puta em Calcutá, estaria na linha.
sábado, 22 de abril de 2017
o Menina baiana - claquete 17
Hoje ela tá. Tá que tá. Vai chamar assim mesmo? Então tá. Estarei aqui espiando. Deixe eu te avisar: ela estava gritando, xingando agora a pouco. Vai assim? Sim, cantou também hoje. Cantou alto. Dizendo ela que é filha da puta e que já pariu um filho de puta.
O MENINA BAIANA: Filho de puta tira a mãe da culpa. Frida amava Diego e era simbiótica. Macaco, cachorro - tudo simbiótico. O melhor é aquele que deixa entrar. Quando não deixa, mata. Andei matando um bocado hoje neste amatamento. Entre, pode entrar. Tá aberto.
"Mudei o nexo da palavra" (Alexandre Leão)
O MENINA BAIANA: Filho de puta tira a mãe da culpa. Frida amava Diego e era simbiótica. Macaco, cachorro - tudo simbiótico. O melhor é aquele que deixa entrar. Quando não deixa, mata. Andei matando um bocado hoje neste amatamento. Entre, pode entrar. Tá aberto.
"Mudei o nexo da palavra" (Alexandre Leão)
o Menina baiana - claquete 16
CENA: Àquela
[Riscando com giz o chão]
O MENINA BAIANA: Melhor que orar é cantar. Como cristais a morte se materializa. Vai mostrando a cara. Isso acontece no diálogo com o silêncio. Receber o telefone na cara também cristaliza. Agora chega! [levanta impetuosa e vai saindo de cena enquanto fala]Ave Maria! Eu vou cantar!
[Volta rapidamente com um pano (de chão) nas mãos. Ajoelha, limpando o chão enquanto canta Ilê de Luz]
O que é que faz alguém imaginar uma música na voz de outrem? Ele pediu essa, imagina! " Me diz que sou ridículo mas no fundo tu me achas lindo. " ou então: " você me quer, você me quer?" Eu te quero como uma nuvem carregada de chuva. Aquele tipo de nuvem que quando vem é dizendo que está chegando. Eu te quero assim. E quando um raio e seu trovão se mostrarem, pode chover em mim, na minha origem. Me enxarque toda [torce o pano de chão mirando a boca e sorri]. Eu gosto mesmo é de carnaval... no meu juízo, no seu juízo...
[Riscando com giz o chão]
O MENINA BAIANA: Melhor que orar é cantar. Como cristais a morte se materializa. Vai mostrando a cara. Isso acontece no diálogo com o silêncio. Receber o telefone na cara também cristaliza. Agora chega! [levanta impetuosa e vai saindo de cena enquanto fala]Ave Maria! Eu vou cantar!
[Volta rapidamente com um pano (de chão) nas mãos. Ajoelha, limpando o chão enquanto canta Ilê de Luz]
O que é que faz alguém imaginar uma música na voz de outrem? Ele pediu essa, imagina! " Me diz que sou ridículo mas no fundo tu me achas lindo. " ou então: " você me quer, você me quer?" Eu te quero como uma nuvem carregada de chuva. Aquele tipo de nuvem que quando vem é dizendo que está chegando. Eu te quero assim. E quando um raio e seu trovão se mostrarem, pode chover em mim, na minha origem. Me enxarque toda [torce o pano de chão mirando a boca e sorri]. Eu gosto mesmo é de carnaval... no meu juízo, no seu juízo...
o Menina baiana - Claquete 15
CENA: A Outra
MENINA BAIANA: Naquele dia que a Outra me negou um camarão de capote eu chorei. Eu gritei. Eu esperneei. Eu pedi, ela não me deu. Ele pediu, ela deu a ele. Ela gostava de dar mas não a mim. Eu berrei e desci pra casa de minha avó. Fui pra janela da casa dela. Sete portas e eu só enxergava a janela, me pendurei lá e xinguei. Xinguei tanto, tanto, gritei tanto!... Minha vovozinha esquecida... Minha vovozinha... Por que deixou essa menina xingar tanto da sua janela? Era tão raro sobrar camarão de capote... A Outra precisava agradar o filho da patroa, patroa essa que insinuou que seu marido pegava a vizinha quando quem tava pegando a vizinha era o marido dela. Era linda a vizinha, linda e amorosa... [pausa riscando o chão de giz] Agora é o Menina baiana.Tantas crianças se mantando... Eu acho q estão enxergando o mundo mais cedo e logo desistem... A criança tá solta.
MENINA BAIANA: Naquele dia que a Outra me negou um camarão de capote eu chorei. Eu gritei. Eu esperneei. Eu pedi, ela não me deu. Ele pediu, ela deu a ele. Ela gostava de dar mas não a mim. Eu berrei e desci pra casa de minha avó. Fui pra janela da casa dela. Sete portas e eu só enxergava a janela, me pendurei lá e xinguei. Xinguei tanto, tanto, gritei tanto!... Minha vovozinha esquecida... Minha vovozinha... Por que deixou essa menina xingar tanto da sua janela? Era tão raro sobrar camarão de capote... A Outra precisava agradar o filho da patroa, patroa essa que insinuou que seu marido pegava a vizinha quando quem tava pegando a vizinha era o marido dela. Era linda a vizinha, linda e amorosa... [pausa riscando o chão de giz] Agora é o Menina baiana.Tantas crianças se mantando... Eu acho q estão enxergando o mundo mais cedo e logo desistem... A criança tá solta.
sexta-feira, 21 de abril de 2017
Menina baiana - claquete 0
CENA: E não havia nada
MENINA BAIANA: Só você e sua música
Quer que eu cante pra você
Uma música
Só minha
Pra você perceber
o meu vazio
Correndo pro seu vazio
De perguntas sem respostas? Mariana Magalhães.
MENINA BAIANA: Só você e sua música
Quer que eu cante pra você
Uma música
Só minha
Pra você perceber
o meu vazio
Correndo pro seu vazio
De perguntas sem respostas? Mariana Magalhães.
Menina baiana - claquete 14
CENA: A chuva cai e o horizonte tão pequeno.
MENINA BAIANA: Minha paixão é ela mas eu digo que é você... [gargalha] Ah... Eu sou apaixonada por você. Agora eu to aqui com Simone De Beauvoir. Querendo conhecer. Querendo sair. Querendo ficar e querendo sair pra conhecer o teatro que eu quero fazer a minha próxima apresentação. [Pausa] Eu gosto de você. É esse o jeito de existir. [Pausa] Mas de vez em quando essa vida me deixa um pouco triste. [ri] Eu te amo.
MENINA BAIANA: Minha paixão é ela mas eu digo que é você... [gargalha] Ah... Eu sou apaixonada por você. Agora eu to aqui com Simone De Beauvoir. Querendo conhecer. Querendo sair. Querendo ficar e querendo sair pra conhecer o teatro que eu quero fazer a minha próxima apresentação. [Pausa] Eu gosto de você. É esse o jeito de existir. [Pausa] Mas de vez em quando essa vida me deixa um pouco triste. [ri] Eu te amo.
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